Uma frase simples: “América para os americanos” tornou-se, ao longo de dois séculos, um dos pilares mais duradouros da política externa dos Estados Unidos. Formulada em 1823, a Doutrina Monroe nasceu como um aviso às potências europeias, mas acabou moldando profundamente as relações de poder no hemisfério e influenciando a história política, econômica e militar da América Latina.
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Em 2 de dezembro de 1823, o presidente James Monroe apresentou ao Congresso, em Washington, uma mensagem que marcaria o início de uma nova era diplomática no continente. O princípio central era claro: o hemisfério americano não deveria mais ser alvo de colonização europeia.

Naquele período, diversos países da América haviam recém-conquistado sua independência de monarquias como Espanha, Portugal e França. Diante do temor de uma restauração colonial, os Estados Unidos declararam que qualquer tentativa europeia de intervir no continente seria considerada uma ameaça direta à sua segurança.
Embora apresentada como uma defesa da soberania regional, a doutrina também consolidava a pretensão dos EUA de exercer liderança política no hemisfério. O discurso inaugurava não apenas uma política defensiva, mas uma visão estratégica de influência continental.
A formulação da Doutrina Monroe ocorreu em um cenário internacional tenso. Após as guerras napoleônicas, a chamada Santa Aliança, formada por Rússia, Áustria e Prússia, buscava restaurar monarquias absolutistas e conter revoluções liberais.
Nesse contexto, os Estados Unidos encontraram um aliado estratégico no Reino Unido, potência naval dominante e interessada em manter abertas as rotas comerciais com as novas nações americanas. A doutrina, portanto, combinava princípios políticos com interesses econômicos e comerciais compartilhados.
Apesar do impacto simbólico do discurso, os EUA ainda eram uma potência em formação, com influência limitada fora da costa leste. Na prática, o princípio de não intervenção europeia dependia fortemente do poder marítimo britânico.
Nos primeiros anos, líderes latino-americanos interpretaram a Doutrina Monroe como um escudo contra o retorno do colonialismo. Figuras históricas como Simón Bolívar, atuante em Caracas e Bogotá, chegaram a considerar Estados Unidos e Reino Unido como garantidores da independência regional.
Governos em países como México, Chile e Argentina demonstraram expectativas de cooperação política e militar. Contudo, com o tempo, tornou-se evidente que a aplicação da doutrina dependeria prioritariamente dos interesses de Washington.
O significado da Doutrina Monroe começou a mudar de forma decisiva no século XIX. Sob a presidência de James K. Polk, os Estados Unidos expandiram seu território por meio da guerra contra o México, que resultou na perda de mais da metade do território mexicano em 1848.
Ao longo das décadas seguintes, intervenções políticas e militares tornaram-se mais frequentes em regiões estratégicas como Caribe, América Central e Panamá. A doutrina deixou de ser apenas um princípio defensivo e passou a justificar ações expansionistas.

Esse movimento foi consolidado no início do século XX, quando o presidente Theodore Roosevelt introduziu uma interpretação ainda mais assertiva: os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de países latino-americanos para garantir estabilidade política e econômica.
A partir desse momento, Washington passou a atuar como “polícia do hemisfério”, conduzindo diversas intervenções em países da região ao longo do século XX.
Século XX: hegemonia e Guerra Fria
Durante as duas Guerras Mundiais, os Estados Unidos reforçaram sua presença no continente para impedir a influência de potências adversárias. Já na Guerra Fria, o combate ao comunismo serviu como justificativa para novas intervenções políticas e militares em países latino-americanos.
A Doutrina Monroe tornou-se, na prática, um princípio flexível, reinterpretado conforme as prioridades estratégicas dos Estados Unidos. Diferentes governos a invocaram para legitimar políticas de segurança, expansão econômica e influência diplomática.
Esse histórico de intervenções consolidou a percepção crítica de que a América Latina funcionava como esfera de influência direta de Washington, frequentemente descrita como seu “quintal”.
O paralelo com o mundo atual
Duzentos anos após sua formulação, a Doutrina Monroe “ressurge” em um contexto global completamente diferente, mas com dinâmicas de poder surpreendentemente semelhantes. Se no século XIX o objetivo era impedir a recolonização europeia, hoje a preocupação estratégica dos Estados Unidos está voltada à influência de novas potências globais no hemisfério.
Documentos recentes de segurança nacional apresentados em Washington classificam a América Latina como um espaço central da disputa geopolítica contemporânea. A ascensão econômica e tecnológica da China na região é vista como um desafio direto à histórica primazia norte-americana.
Investimentos chineses em infraestrutura, energia e telecomunicações em países como Brasil, Argentina e Chile reposicionaram o continente como área estratégica de competição global. Ao mesmo tempo, a presença diplomática e comercial de potências extrarregionais reacende a lógica de esferas de influência que marcou o século XIX.
Outro elemento que reforça o paralelo histórico é o uso do argumento da segurança regional para justificar maior presença política e militar. Tensões envolvendo a Venezuela, operações contra redes criminosas transnacionais e cooperação militar ampliada em áreas do Caribe são frequentemente apresentadas como medidas de estabilidade hemisférica.

Assim como no passado, a defesa da ordem regional aparece associada à proteção de interesses estratégicos e econômicos.
No campo econômico, a disputa por cadeias de suprimentos, energia e tecnologia evidencia um novo tipo de influência. Diferentemente das intervenções militares diretas do século XX, o século XXI é marcado por competição por investimentos, infraestrutura e alinhamento político.
Analistas apontam que a lógica da Doutrina Monroe foi transformada, mas não desapareceu. A diferença fundamental é que o confronto não ocorre mais contra impérios coloniais europeus, mas contra atores globais capazes de disputar influência econômica e diplomática.
Outro paralelo relevante é o discurso político. Lideranças norte-americanas voltaram a mencionar explicitamente o princípio de proteção do hemisfério, reforçando a ideia de que a estabilidade regional continua sendo tratada como prioridade estratégica nacional.
O resultado é um cenário em que a América Latina permanece no centro de disputas internacionais, não mais como território a ser colonizado, mas como espaço decisivo de poder global.
Para especialistas em relações internacionais, a principal diferença entre os séculos XIX e XXI está nos instrumentos utilizados. Enquanto no passado predominavam intervenções militares e ocupações territoriais, hoje a influência se manifesta por meio de financiamento, tecnologia, comércio e diplomacia estratégica.
Ainda assim, o princípio subjacente permanece reconhecível: a ideia de que o equilíbrio político do hemisfério é vital para a segurança e a projeção de poder dos Estados Unidos.
Do alerta contra monarquias europeias à competição com potências globais emergentes, a Doutrina Monroe continua a ecoar como referência simbólica de uma política externa que, mesmo adaptada aos novos tempos, preserva a noção de liderança hemisférica norte-americana.









