Morreu nesta segunda-feira (3), aos 100 anos, a militante Clara Charf, viúva de Carlos Marighella e uma das vozes mais firmes na luta pelos direitos humanos e pela memória das vítimas da ditadura militar brasileira. Figura histórica da esquerda e referência ética para várias gerações, Clara dedicou a vida à resistência, à liberdade e à construção da democracia. Nascida em 1925, no Rio de Janeiro, Clara começou sua militância ainda jovem, integrando o movimento estudantil e o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Ao lado de Marighella, viveu os anos mais duros da repressão política, enfrentando prisões, exílios e perseguições. Mesmo após o assassinato do companheiro em 1969, Clara nunca se calou tornou-se símbolo da luta por justiça e da preservação da memória dos que tombaram pela democracia.
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Durante o exílio em Cuba e na Alemanha Oriental, manteve-se ativa na defesa dos direitos das mulheres e na solidariedade aos povos oprimidos da América Latina. Ao retornar ao Brasil com a anistia, em 1979, fundou e participou de movimentos sociais e organizações voltadas à igualdade de gênero e à memória política, sempre reafirmando o compromisso com os ideais de Marighella.
Clara foi uma das principais articuladoras da criação do Instituto Marighella, responsável por preservar o legado do guerrilheiro baiano e promover debates sobre direitos humanos e justiça de transição. Sua voz esteve presente em atos, livros, documentários e homenagens sempre lembrando que a luta pela verdade não se encerra enquanto houver esquecimento e impunidade. Nos últimos anos, mesmo com a idade avançada, Clara seguia ativa, participando de eventos, entrevistas e campanhas pela democracia.
Em cada fala, deixava claro seu compromisso com a juventude e com o país que sonhava mais justo. “Enquanto houver injustiça, minha voz não descansará”, dizia.
A morte de Clara Charf encerra um século de coragem e lucidez. Sua trajetória se confunde com a própria história da resistência no Brasil e seu legado ecoa como um chamado à memória, à dignidade e à esperança.









