Em 29 de abril de 2014, o então presidente do São Paulo Futebol Clube, Carlos Miguel Aidar, protagonizou uma das cenas mais emblemáticas, e também mais mal compreendidas, da história recente do futebol brasileiro. Convocada para explicar a contratação do atacante Alan Kardec, até então jogador do Palmeiras, a entrevista coletiva realizada no Morumbi ganhou contornos inesperados quando Aidar abriu uma sacola, retirou quatro cachos de banana, comeu uma delas diante das câmeras e afirmou que o gesto simbolizava apoio à campanha internacional contra o racismo, desencadeada dias antes após o ataque sofrido por Daniel Alves na Espanha.
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A explicação era legítima. A causa, incontestável. Mas o futebol, especialmente o futebol paulista, é um território onde símbolos jamais são neutros. Em meio a uma rivalidade centenária, carregada de disputas históricas, políticas e identitárias, a banana deixou rapidamente de ser apenas fruta ou manifesto social. Transformou-se em metáfora involuntária, escapando do controle do discurso oficial e ganhando significados que iam muito além da intenção declarada.
O gesto de Aidar não surgiu no vazio. Ele foi o ponto culminante de uma crise institucional explícita entre São Paulo e Palmeiras. Dias antes, em abril de 2014, o então presidente palmeirense Paulo Nobre acusara publicamente o dirigente tricolor de ter aliciado Alan Kardec enquanto o atacante ainda negociava a renovação de contrato com o Verdão. Em entrevista coletiva, Nobre foi direto e duro: classificou a postura do São Paulo como antiética no mercado da bola, colocando em xeque não apenas a negociação, mas a relação entre as duas diretorias.
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A resposta de Aidar veio no dia seguinte. Mas não apenas em palavras. Ao aparecer diante da imprensa com bananas nas mãos e consumi-las durante a entrevista, o presidente do São Paulo adotou um tom provocativo, ainda que tentasse enquadrar o gesto em outra narrativa. Em meio às justificativas, disparou uma frase que o tempo trataria de ressignificar:
“A entrevista dele demonstra o atual tamanho da Sociedade Esportiva Palmeiras, que ano a ano se apequena com demonstrações dessa natureza.”
Dita com naturalidade, quase como um comentário protocolar, a declaração hoje soa como ironia histórica. Naquele momento, Aidar falava a partir de um lugar de superioridade simbólica, convencido de que o São Paulo ainda ocupava, de forma incontestável, o topo da hierarquia paulista, esportiva, institucional e moral. Era o discurso de quem ainda acreditava que história e tradição bastavam para sustentar o presente.

No entanto, já nos primeiros minutos da coletiva, o próprio Aidar percebeu o risco do gesto. Ao ser questionado se as bananas seriam uma provocação direta ao Palmeiras, tentou recuar, pediu para não ser mal interpretado e reforçou o caráter antirracista da ação. Mas naquele instante, a narrativa já não lhe pertencia mais.
No futebol, a imagem quase sempre antecede a explicação. E quando um gesto exige muitas justificativas, ele já perdeu sua força original. A banana passou a carregar múltiplos sentidos simultâneos: manifesto, ironia, provocação e, sobretudo, excesso de confiança. Tornou-se o retrato de um clube que ainda falava como potência absoluta, sem perceber que o chão começava a se mover sob seus pés.
Onze anos depois, o episódio não persiste por sua excentricidade ou pelo inusitado da cena. Ele permanece relevante porque se revelou, com o tempo, um marco silencioso de transição, o instante simbólico em que São Paulo e Palmeiras começaram a trocar de lugar no futebol paulista, ainda que nenhum dos dois estivesse pronto, naquele momento, para admitir.
2014: quando a hierarquia ainda parecia imutável
À época, o discurso do São Paulo era sustentado por números e história:
- São Paulo (até 2014)
- 3 Copas Libertadores
- 3 Mundiais
- 6 Campeonatos Brasileiros
- Reconhecimento nacional como modelo administrativo
- Palmeiras (até 2014)
- 1 Libertadores
- 8 Brasileiros (muitos relativizados no debate público)
- Rebaixamentos em 2002 e 2012
- Processo de reconstrução institucional em curso
Era um cenário em que o São Paulo ainda se via, e era visto, como autoridade moral e esportiva. O Palmeiras, por outro lado, operava em silêncio, reorganizando estruturas, reduzindo improvisos e apostando no tempo como aliado.
A banana surge nesse contexto como símbolo da era do discurso, enquanto o rival iniciava a era da execução.
“Se Eu Fosse Você”: a metáfora perfeita para o futebol paulista
O paralelo com o filme Se Eu Fosse Você (2006) ajuda a compreender a profundidade do processo. Na comédia, os protagonistas acordam com os corpos trocados, mas seguem tentando agir como antes. O humor nasce do descompasso: a identidade permanece, mas o mundo já não responde da mesma forma.

Foi exatamente isso que aconteceu com São Paulo e Palmeiras.
O São Paulo continuou se comportando como o clube hegemônico, confiando no capital simbólico acumulado ao longo das décadas. O Palmeiras, por sua vez, passou a agir como quem ocupa esse espaço, ainda que sem o mesmo reconhecimento imediato.
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Os corpos haviam sido trocados. A consciência, não.
A década da inversão: números que não admitem retórica
Entre 2015 e 2024, a diferença deixou de ser narrativa e passou a ser estatística.
Palmeiras (2015–2024)
- 2 Copas Libertadores (2020, 2021)
- 4 Campeonatos Brasileiros (2016, 2018, 2022, 2023)
- 1 Copa do Brasil (2015)
- 2 Recopas Sul-Americanas
- Presença constante em semifinais e finais continentais
- Estabilidade política e técnica
- Um modelo de gestão baseado em continuidade e pragmatismo
São Paulo (2015–2024)
- 1 grande título no período (Copa do Brasil de 2023)
- Alternância frequente de treinadores
- Crises políticas recorrentes
- Endividamento crescente
- Reconstruções sucessivas que nunca se completam
- Comunicação institucional muitas vezes reativa

A troca de papéis estava consolidada. O Palmeiras passou a entregar mais e explicar menos. O São Paulo, o oposto.
Vista hoje, a “banana de Aidar” funciona como um espelho histórico. Ela reflete um clube que ainda acreditava que grandeza se reafirma por gestos e discursos, enquanto o rival compreendia que, no futebol contemporâneo, poder se exerce com método, repetição e silêncio.
O episódio também revela uma mudança mais ampla no futebol brasileiro:
- Antes, liderança era carisma e retórica.
- Hoje, liderança é processo e consistência.
Se em 2014 o São Paulo precisou convocar uma coletiva performática para explicar uma contratação, o Palmeiras da década seguinte passou a naturalizar movimentos semelhantes. Não porque fossem irrelevantes, mas porque um clube seguro de seu projeto não precisa teatralizar suas decisões.
O poder mudou de linguagem.
E quem não se adaptou ficou falando sozinho.
A banana de Carlos Miguel Aidar não entrou para a história por ter sido comida diante das câmeras. Ela permanece porque antecipou, sem querer, a troca de identidades entre dois gigantes.
Como em Se Eu Fosse Você, o drama não está na troca em si, mas na demora em reconhecê-la. No futebol, quem insiste em se ver no corpo errado corre o risco de passar a década inteira tentando se explicar, enquanto o outro simplesmente age.
No fim, a metáfora é simples e dura: o São Paulo falou como grande quando já não era hegemônico; o Palmeiras tornou-se hegemônico sem precisar falar.
E no futebol moderno, quase sempre, quem fala menos levanta mais taças.









