Conselho Deliberativo do São Paulo define data para julgar impeachment de Casares; veja

O São Paulo Futebol Clube vive um de seus momentos institucionais mais delicados dos últimos anos. Em meio a denúncias financeiras, investigações policiais e forte pressão da torcida, o pedido de impeachment do presidente Julio Casares teve data oficialmente confirmada e será analisado pelo Conselho Deliberativo do clube na próxima quarta-feira (14) com início previsto para 18h30, na sede social do Tricolor.

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A convocação foi feita pelo presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres, e marca o ápice de uma crise que se intensificou ao longo das últimas semanas. Para que o afastamento provisório de Casares seja aprovado, será necessária uma maioria qualificada de dois terços dos conselheiros, o equivalente a 171 votos favoráveis entre os 255 possíveis. Caso esse número seja alcançado, o presidente será imediatamente afastado de suas funções.

Mesmo com a votação marcada, o processo ainda não se encerra no Conselho. Em até 30 dias após a decisão, o clube deverá convocar uma Assembleia Geral de sócios, responsável por ratificar, ou rejeitar, o afastamento. Nesse segundo estágio, o critério muda: basta maioria simples dos votos para confirmar o impeachment.

Se o afastamento for confirmado, quem assume interinamente a presidência do São Paulo é o vice-presidente Harry Massis Junior, que permanecerá no cargo até a realização das eleições previstas para este ano. No modelo adotado pelo clube do Morumbi, a escolha do presidente é indireta, feita exclusivamente pelos conselheiros.

A definição da data da votação acontece poucos dias depois de o Conselho Consultivo do São Paulo ter divulgado um posicionamento oficial contrário ao impeachment. Reunido extraordinariamente em São Paulo na última terça-feira (6), o Conselho Consultivo, formado por ex-presidentes do clube, avaliou o pedido de impeachment e, por maioria, decidiu se posicionar contra o afastamento. No documento oficial, o colegiado afirma que as acusações carecem de provas materiais e ressalta que, embora o impeachment seja um instrumento jurídico, sua aplicação possui forte natureza política.

O parecer destaca ainda que, do ponto de vista estritamente jurídico, não haveria elementos suficientes para justificar um afastamento neste momento, apesar da gravidade do contexto e do impacto institucional da crise.

Paralelamente à crise política, Julio Casares é alvo de investigação da Polícia Civil. O inquérito tem como base um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), divulgado pelo portal UOL, que aponta que o dirigente recebeu R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro vivo entre janeiro de 2023 e maio de 2025.

Segundo o relatório, o montante representa 47% da renda total declarada por Casares no período. As movimentações financeiras teriam ocorrido de forma fracionada, prática conhecida como “smurfing”, caracterizada pelo Coaf como uma possível tentativa de burlar mecanismos de controle e fiscalização bancária.

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Ainda de acordo com as apurações, o próprio banco comunicou as operações ao Coaf em 2023, por considerá-las fora do padrão habitual da conta. A investigação também apura saques em espécie que somam R$ 11 milhões dos cofres do clube, realizados entre janeiro de 2021 e novembro de 2025. Até o momento, não há comprovação direta de ligação entre esses saques e os depósitos pessoais do presidente.

Protestos e reação da torcida

Enquanto os conselhos debatem internamente, a pressão externa cresce. Torcedores organizaram protestos em frente ao Centro de Treinamento do clube, também em São Paulo. Na saída de uma das reuniões, manifestantes tentaram bloquear o carro de Casares, exibindo uma faixa com os dizeres “gestão criminosa”. O ato foi registrado por jornalistas que acompanhavam o encontro.

A Torcida Independente, principal organizada do São Paulo, publicou notas oficiais e manifestações duras nas redes sociais exigindo a renúncia imediata do presidente. Um de seus líderes, Henrique Gomes, o “Baby”, classificou a situação como uma “decepção irreversível” e afirmou que não existe perdão para quem teria prejudicado o clube. A expressão “batom na cueca”, usada por ele, viralizou e passou a simbolizar, entre torcedores, a percepção de que as suspeitas seriam incontornáveis.

O que diz a defesa de Casares

Por meio de nota assinada pelos advogados Doniel Biaiski e Bruno Borragine, Julio Casares nega qualquer irregularidade. A defesa afirma que todas as movimentações financeiras possuem origem lícita e compatível com sua trajetória profissional, destacando que o dirigente ocupou cargos de alta remuneração na iniciativa privada antes de assumir a presidência do clube.

Segundo os advogados, as explicações detalhadas e a documentação comprobatória serão apresentadas no decorrer da investigação, com o objetivo de afastar qualquer ilação ou interpretação precipitada, especialmente diante do fato de que o conteúdo integral do inquérito ainda não é de conhecimento público.

Com a votação do impeachment marcada, o São Paulo entra em uma semana decisiva, que pode redefinir os rumos administrativos e políticos do clube. Entre investigações em andamento, conselhos divididos e uma torcida cada vez mais mobilizada, o futuro da gestão Julio Casares será decidido nos bastidores do Morumbi, sob forte escrutínio público e institucional.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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