A Polícia Civil de São Paulo conduz uma investigação para apurar possíveis irregularidades financeiras envolvendo o São Paulo Futebol Clube e o presidente, Julio Casares. O inquérito tem como base relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e analisa tanto movimentações pessoais do dirigente quanto saques realizados diretamente nas contas do clube.
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De acordo com os documentos, Casares recebeu cerca de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro vivo entre janeiro de 2023 e maio de 2025. O montante representa aproximadamente 47% de toda a renda identificada em sua conta no período, se tornando então, a principal fonte de recursos do dirigente. Os salários pagos pelo São Paulo corresponderam a pouco mais de 19% da movimentação total, cerca de R$ 617 mil.
Os depósitos chamaram a atenção dos órgãos de controle por terem sido feitos de forma fracionada, em valores relativamente baixos, com registros de até 12 operações no mesmo dia e quantias próximas ao limite de R$ 50 mil. Essa prática é classificada pelo próprio conselho como “smurfing”, mecanismo utilizado para tentar driblar sistemas de monitoramento financeiro. Em 2023, o banco onde Casares mantém conta chegou a emitir um alerta formal ao Coaf, apontando movimentações consideradas fora do padrão.
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Para a instituição financeira, o presidente do São Paulo teria justificado os depósitos como recursos recebidos em espécie referentes a bonificações por títulos do clube. A Polícia Civil confirma a existência da investigação, mas, a pedido das próprias autoridades, o caso segue sob segredo de Justiça, o que limita a divulgação de detalhes sobre o andamento do inquérito e os possíveis investigados.
Outro ponto sensível levantado pelos relatórios indica que a conta pessoal de Casares teria sido utilizada, de forma recorrente, para o pagamento de despesas de sua ex-esposa, Mara Casares. Ao todo, foram identificados mais de 100 boletos quitados em nome dela. Mara ocupava cargos diretivos e de conselheira no São Paulo, mas se afastou das funções após vir à tona um suposto esquema de exploração irregular de camarotes no estádio do Morumbis, investigação que também envolve o ex-diretor Douglas Schwarzmann.

Paralelamente, a Polícia Civil analisa saques em dinheiro realizados diretamente nas contas do São Paulo entre janeiro de 2021 e novembro de 2025. No total, foram 35 retiradas em espécie que somam cerca de R$ 11 milhões. O pico ocorreu em 2024, com 11 saques que totalizaram R$ 5,2 milhões. Os relatórios do Coaf não indicam, até o momento, o destino dos valores nem apontam relação direta entre esses saques e os depósitos feitos na conta do presidente.
Nos primeiros registros, em 2021, as retiradas foram feitas por um funcionário do clube. Posteriormente, o São Paulo passou a utilizar uma empresa de transporte de valores para realizar as operações, movimento que, segundo a investigação, pode ter dificultado a identificação dos responsáveis finais pelo dinheiro.
Em nota oficial, a defesa de Julio Casares afirma que todas as movimentações financeiras identificadas nos relatórios do Coaf possuem origem lícita e compatível com sua evolução patrimonial. Os advogados destacam que o dirigente exerceu cargos de alta gestão na iniciativa privada antes de assumir a presidência do São Paulo, com remuneração elevada, e garantem que a origem dos recursos será devidamente comprovada ao longo do processo, com a apresentação de documentos fiscais e contábeis. A defesa também ressalta que não teve acesso integral aos autos da investigação.
O São Paulo Futebol Clube, por sua vez, declarou que acompanha o caso, está à disposição das autoridades e irá apresentar a contabilidade completa referente aos R$ 11 milhões sacados, reforçando que, segundo o clube, não há vínculo entre essas operações e os depósitos investigados na conta do presidente.









