Na última sexta-feira (09), o presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, Olten Ayres, concedeu uma coletiva de imprensa na qual esclareceu a situação política do clube e explicou o funcionamento do processo de impeachment que será votado para a possível destituição de Julio Casares. A votação está marcada para o dia 16, às 18h30.
Durante a coletiva, Olten Ayres explicou que o estatuto do clube prevê dois artigos para casos de afastamento do presidente: os artigos 58 e 112. Pelo artigo 58, é necessário que 75% dos votos do Conselho Deliberativo sejam favoráveis para que o afastamento seja aprovado. Este é o artigo defendido por Julio Casares, por representar um processo mais rigoroso e de difícil aprovação.
Por outro lado, o artigo 112 do mesmo estatuto estabelece que o afastamento pode ser deferido com o apoio de dois terços dos conselheiros, o que torna o processo menos exigente. Esse artigo é defendido pela oposição, por facilitar a aprovação do impeachment.
Na coletiva, Olten afirmou que pretende seguir a orientação de advogados externos e aplicar o artigo considerado mais “favorável” ao presidente Julio Casares.
“Havendo uma contradição entre duas normas, no direito, prevalece a norma que é mais favorável à pessoa que está respondendo a qualquer tipo de processo, inquérito. Essa é a norma geral de direito. E por isso foi feita essa alteração. Não houve nenhuma decisão baseada na minha relação pessoal com o presidente Julio Casares, mas na minha relação com o cargo do Estatuto do São Paulo”
Além da controvérsia envolvendo os artigos do estatuto, o Conselho Deliberativo do São Paulo também está dividido quanto ao formato da votação, que será realizada de forma totalmente presencial, sem a possibilidade de participação online. Olten Ayres justificou a decisão afirmando que o modelo presencial é o mais “seguro”.
“As votações para afastamento do presidente obviamente versam sobre um tema superdelicado. Que mexe com toda a estrutura do clube, toda a credibilidade do clube, contratos, questões de natureza de publicidade, natureza financeira. Todo o tipo de natureza. Quando se estabelece que o voto deve ser secreto, nós, numa interpretação mais extensiva, acreditamos que o voto deve ser presencial, porque, neste tipo de votação, ela pode gerar um pedido de recontagem, um tipo de contestação de quem está votando, quem não está votando.”
“E qualquer tipo de votação de natureza híbrida ou online dificulta esse tipo de supervisão. Neste caso específico entendemos que o fato de determinar um rito secreto, da importância do assunto, não temos como fazer uma votação que não seja presencial”
“Dada a importância dos fatos, a situação que eventualmente o resultado vai ser acompanhado de perto e que o voto eletrônico, por si só, não possibilita uma auditoria sem que haja a revelação do eleitor, já dificulta o cenário. Porque se amanha alguém falasse que quer a revisão desse resultado, eu teria que abrir o voto da pessoa. Alguém, com certeza, no voto eletrônico, iria pedir uma recontagem. Para fazer uma recontagem eu teria que abrir o voto. E aí ele deixou de ser secreto. É uma situação muito complexa de ser interpretada. Porque tem várias ramificações que devem ser avaliadas nisso. Mas uma delas é a questão de uma eventual recontagem. Para haver recontagem eu teria que abrir os votos.”
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Entenda a crise política do São Paulo
A crise política do clube ficou pública após o vazamento de áudios que expuseram um esquema clandestino de comercialização de áreas VIP no MorumBIS durante o show da cantora Shakira, realizado em fevereiro de 2025. Os ingressos, que deveriam ser de uso exclusivo da presidência, estavam sendo vendidos por valores que chegavam a R$ 2.100.
As gravações comprometeram pessoas do círculo próximo de Julio Casares, entre elas sua ex-esposa e diretora do futebol feminino, Mara Casares, além do diretor-adjunto da base, Douglas Schwartzmann. Ambos pediram licenciamento após a repercussão do caso. O Ministério Público, no entanto, identificou indícios de corrupção privada e coação, solicitando a abertura imediata de inquérito policial. A situação foi comentada por Olten Ayres durante a coletiva:
“É um ponto que eu julgo como um ponto gatilho (camarotes), a partir do caso dos camarotes é que acabou tudo isso que a gente tá conversando sendo revelada. Embora a questão que o Pedro nos trouxe seja até anterior, mas a questão dos camarotes foi o gatilho. Sem sombra de dúvidas, tão logo tomamos conhecimento da questão dos camarotes eu mesmo apresentei uma representação ao Conselho de Ética. O Conselho de Ética agiu com bastante brevidade, determinou um de seus membros como relator. A sindicância já está pronta. Foi juntada ao caso do Conselho de Ética, só não pode ser revelada porque ainda corre em segredo. É uma sindicância bastante densa. E espero que em breve tenhamos o resultado dessa sindicância. Obviamente as oportunidades de defesa estão sendo dadas aos acusados. E tão logo isso aconteça vocês saberão, porque uma vez apontado pelo Conselho de Ética qual seria, se haveria e havendo qual seria a punição a ser aplicada, essa punição será levada ao plenário do Conselho Deliberativo.”
Com o avanço das investigações do Ministério Público e da Polícia Civil, foi identificada a realização de 35 saques em espécie das contas do São Paulo, totalizando R$ 11 milhões entre os anos de 2021 e 2025.
O fluxo das retiradas chamou atenção pela escalada dos valores. Apenas em 2024, o montante sacado chegou a R$ 5,2 milhões. Paralelamente, o COAF identificou que a conta pessoal de Julio Casares recebeu depósitos fracionados que somam R$ 1,5 milhão, prática conhecida como smurfing, utilizada para evitar mecanismos de controle do Banco Central. A defesa do presidente nega qualquer irregularidade e afirma que os valores têm origem lícita, decorrente de sua atuação na iniciativa privada.
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A apuração do MP-SP também se estendeu a empresas terceirizadas que prestam serviço ao clube. Entre elas, a Off Side, responsável pela logística em jogos de clubes da Série A, é apontada como possível empresa de fachada no inquérito da Polícia Civil, que investiga a empresa, o São Paulo, Rui Costa e Carlos Belmonte. MP-SP, Polícia Civil e COAF seguem com as investigações.

Crise se estende aos apoiadores de Casares e ao futebol
O isolamento político de Julio Casares se agravou nos últimos dias. A “Coalizão”, base de apoio do presidente no Conselho Deliberativo, entrou em ruptura. Quatro grupos considerados fundamentais, Vanguarda, Legião, Sempre e Participação São-Paulina, que juntos somam 125 conselheiros, oficializaram o rompimento, representando uma derrota para Julio Casares
No futebol, o São Paulo também enfrenta instabilidade no planejamento para a temporada 2026. Com o foco da diretoria voltado ao processo de impeachment, apenas Rui Costa e Muricy Ramalho seguem à frente das decisões esportivas, o que paralisou a renovação do zagueiro Sabino e impactou a negociação de Rodriguinho, vendido ao Red Bull Bragantino.









