A final do Mundial de Clubes da FIFA de 2000, disputada em 14 de janeiro no Maracanã, não marcou apenas o primeiro campeão da história da competição. Corinthians e Vasco protagonizaram uma decisão que simbolizou o auge do futebol brasileiro e aconteceu em um mundo que vivia profundas transformações culturais, tecnológicas e esportivas.
Um planeta entre o analógico e o digital
No início dos anos 2000, o mundo ainda estava longe da realidade hiperconectada de hoje. A internet discada começava a se popularizar no Brasil, os celulares eram simples, sem telas sensíveis ao toque, e as redes sociais sequer existiam. A moda trazia calças de cintura baixa, óculos pequenos e uma estética fortemente influenciada pelos anos 90.
LEIA TAMBÉM: “Tenho medo de sair de casa, mas tenho mais medo de não conseguir sair nunca mais”
No campo da tecnologia, o Japão aguardava ansiosamente o lançamento do PlayStation 2, que chegaria ao mercado japonês em 2000, enquanto no Brasil só desembarcaria em novembro de 2002. Era o início de uma nova era nos videogames, com gráficos e possibilidades inéditas para a época.
O mundo em números e ícones globais
Em 1999, o planeta Terra alcançava a marca simbólica de seis bilhões de habitantes, registrada com o nascimento de um bebê na Bósnia. Nos Estados Unidos, o primeiro bebê nascido no novo milênio chegou a ser premiado com um milhão de dólares, um reflexo do otimismo que cercava a virada do século.
No universo da moda, uma brasileira dominava o cenário mundial. Gisele Bündchen, com apenas 20 anos, era eleita Modelo do Ano e passava a ser considerada a mulher mais bonita do mundo, consolidando seu status como a maior top model da época.
Música e cultura pop no auge
O ano de 2000 também foi marcado por grandes sucessos musicais. Carlos Santana dominava as paradas com a canção “Smooth”, em parceria com Rob Thomas, liderando o ranking das 100 músicas mais ouvidas do mundo por 15 semanas consecutivas. Um dia após a final do Mundial, a música perderia o topo para “What a Girl Wants”, de Christina Aguilera.
No Brasil, o pagode vivia mudanças importantes. Belo deixava o grupo Soweto após seis anos para iniciar carreira solo, depois de emplacar sucessos que marcaram a década de 90.
O cenário esportivo mundial
O esporte brasileiro vivia um momento especial. Rivaldo era eleito o melhor jogador do mundo após uma temporada brilhante pelo Barcelona, superando nomes como Beckham, Zidane, Figo e Batistuta. Gustavo Kuerten iniciava o ano de 2000 no top 5 do ranking mundial de tênis e, meses depois do título do Corinthians, conquistaria Roland Garros ao vencer Magnus Norman, levantando seu primeiro troféu de Grand Slam.
No automobilismo, Rubens Barrichello trocava a Stewart pela Ferrari após uma negociação que incluiu até a McLaren. Pela escuderia italiana, conquistaria sua primeira vitória na Fórmula 1, fazendo o hino brasileiro voltar a tocar após seis anos, desde a última vitória de Ayrton Senna.
No boxe, Acelino Popó Freitas vivia um cartel perfeito, com 23 vitórias, e era campeão mundial dos super-penas. Um dia depois da final entre Corinthians e Vasco, Popó defenderia com sucesso seu cinturão contra Barry Jones, na Inglaterra.
Já Ronaldo Fenômeno se recuperava da primeira grave lesão no joelho, sofrida em novembro de 1999, quando defendia a Inter de Milão. Na época do Mundial, o atacante ainda estava em processo de recuperação, sem saber que dois anos depois voltaria ao topo do futebol mundial.
O apogeu do futebol brasileiro
Dentro de campo, a final entre Corinthians e Vasco foi um retrato fiel da força do futebol nacional naquele período. As duas equipes chegaram à decisão após superarem gigantes europeus. O Corinthians liderou seu grupo à frente do Real Madrid, enquanto o Vasco venceu Manchester United, Necaxa e South Melbourne, com 100% de aproveitamento.
Os elencos eram recheados de craques. Oito campeões mundiais estavam relacionados para a final. Dida, Vampeta, Ricardinho, Luizão e Edílson pelo Corinthians. Romário, Jorginho e Viola pelo Vasco. Além disso, havia uma verdadeira reserva de talento com nomes como Edmundo, Juninho Pernambucano, Mauro Galvão, Júnior Baiano, Marcelinho Carioca, Pedrinho, Felipe e Freddy Rincón.
Confira “Filhos do Silêncio” de Andrea dos Santos
Apesar do brilho individual, a decisão foi marcada pelo equilíbrio tático. Os 90 minutos e a prorrogação terminaram em 0 a 0 diante de mais de 73 mil torcedores no Maracanã. Nos pênaltis, Dida defendeu a cobrança de Gilberto, e Edmundo desperdiçou a última tentativa vascaína. O Corinthians venceu por 4 a 3 e se tornou o primeiro campeão mundial da FIFA.
Um título que atravessou gerações
A conquista rendeu prêmios individuais. Edílson ficou com a Bola de Ouro do torneio, Edmundo recebeu a Bola de Prata e Romário levou a Bola de Bronze. Mais do que um troféu, aquele Mundial simbolizou um período em que o futebol brasileiro dominava o cenário internacional e o mundo vivia a transição entre dois séculos.
Passadas mais de duas décadas, a final de 2000 segue como um retrato de uma era. Um tempo em que o planeta ainda engatinhava no digital, a música, o esporte e a cultura viviam mudanças profundas, e Corinthians e Vasco escreveram juntos um dos capítulos mais emblemáticos da história do futebol mundial.









