O Comitê Olímpico do Brasil (COB) manifestou apoio à nova política de elegibilidade de gênero anunciada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que determina a exclusão de mulheres trans das competições femininas. Apesar do alinhamento institucional, a entidade brasileira levantou uma série de questionamentos sobre a aplicação prática da medida, especialmente em relação aos critérios técnicos, prazos e possíveis efeitos retroativos.
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A posição foi apresentada pelo presidente do COB, Marco Antonio La Porta, durante evento realizado no Rio de Janeiro. Segundo ele, o comitê brasileiro encaminhou um documento oficial ao COI solicitando esclarecimentos detalhados sobre a implementação da nova diretriz.
“Há uma diretriz clara, mas precisamos entender como ela será aplicada na prática”, afirmou La Porta. Entre os principais pontos levantados estão o início da vigência da regra, sua eventual retroatividade e a abrangência nos ciclos olímpicos, especialmente em relação aos Jogos de Los Angeles, previstos para 2028.
Embora o COI tenha indicado que a política passará a valer oficialmente a partir dos Jogos de 2028, o texto divulgado abriu margem para diferentes interpretações. Isso gerou apreensão entre entidades esportivas nacionais.
A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), por exemplo, procurou o COB em busca de orientações. A principal preocupação gira em torno da possibilidade de aplicação retroativa da regra, ou seja, se resultados, classificações ou exames realizados antes de 2028 poderão ser reavaliados sob os novos critérios.
A incerteza jurídica e esportiva é vista como um dos principais desafios imediatos, já que pode impactar diretamente o planejamento de atletas, federações e comitês.

A nova política do COI estabelece que atletas que desejarem competir na categoria feminina deverão passar por um teste genético específico, voltado à identificação do gene SRY, responsável pelo desenvolvimento de características biológicas masculinas.
O exame será realizado uma única vez na vida do atleta. Resultados negativos para o gene SRY garantirão a elegibilidade permanente na categoria feminina, sem necessidade de novos testes. Já resultados positivos implicarão inelegibilidade definitiva para essa categoria, sem possibilidade de revisão.
De acordo com o COI, o modelo foi construído com base em estudos científicos conduzidos ao longo de um ano, com participação de especialistas em saúde e desempenho esportivo. A entidade também destacou que os testes poderão ser realizados por métodos considerados menos invasivos, como coleta de saliva ou sangue.
Outro ponto levantado pelo COB diz respeito ao tratamento de atletas com condições hormonais específicas, como a hiperandrogenia. O caso mais emblemático é o da sul-africana Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800 metros, que há anos enfrenta restrições impostas por federações internacionais.
Semenya foi impedida de competir após se recusar a seguir protocolos que exigiam a redução artificial dos níveis de testosterona. A atleta chegou a contestar as regras na Justiça, mas abandonou o processo em 2025.
A ausência de diretrizes claras sobre esse tipo de situação levanta dúvidas sobre possíveis lacunas na nova política, especialmente no que diz respeito à distinção entre identidade de gênero e variações biológicas naturais.
Até o momento, o COI não respondeu oficialmente às perguntas enviadas pelo COB. Segundo La Porta, o volume de consultas de diferentes países pode explicar a demora.
“Não foi só o Brasil. Há várias dúvidas sendo levantadas. O documento é amplo e, embora estabeleça uma linha geral, ainda carece de detalhamento operacional”, afirmou o dirigente.
A nova política será aplicada exclusivamente às competições femininas, sem impacto nas disputas masculinas. A medida também se estenderá a todas as modalidades olímpicas, incluindo eventos coletivos e os Jogos da Juventude.
O COI reforça que a decisão busca preservar a equidade competitiva no esporte de alto rendimento. No entanto, o tema segue cercado de debate internacional, envolvendo aspectos científicos, jurídicos e sociais.
Com a proximidade do próximo ciclo olímpico, a pressão por respostas concretas tende a aumentar. Federações, atletas e comitês nacionais aguardam definições mais precisas para ajustar regulamentos, calendários e critérios de participação.
Entre o respaldo científico e a complexidade humana, o esporte olímpico entra em uma nova era, ainda em construção, ainda em disputa.









