Clima ruim, escolhas contestadas e folga polêmica: como Crespo perdeu comando do São Paulo

A demissão do técnico Hernán Crespo do São Paulo, anunciada nesta segunda-feira (09), foi resultado de uma sequência de desgastes internos que vinham se acumulando nas últimas semanas no clube paulista. O episódio que culminou na saída do treinador argentino ocorreu após a eliminação para o Palmeiras na semifinal do Campeonato Paulista, mas, nos bastidores do CT da Barra Funda, o ambiente já vinha sendo marcado por desconfortos entre comissão técnica, diretoria e parte do elenco.

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Segundo apurações internas e informações divulgadas pela ESPN e ge, decisões tomadas por Crespo na partida decisiva contra o rival foram mal recebidas pela diretoria e por jogadores. A principal delas foi a escolha de escalar o volante Luan como titular no confronto eliminatório, decisão interpretada dentro do clube como fruto de superstição e não de estratégia técnica.

“Escolha foi pelo Luan em cima das características do rival, que joga na bola longa e precisávamos de um jogador fisicamente como o Luan. Pessoalmente, acho que deu certo. Eles tiveram dificuldades. Mas depois o jogo muda. Tivemos que arriscar com Danielzinho porque o jogo precisava de outra coisa”, disse ele em coletiva.

Nos bastidores, dirigentes avaliaram que o treinador teria apostado na coincidência de o meio-campista ter marcado um gol decisivo na final do Campeonato Paulista de 2021, justamente contra o Palmeiras. A leitura interna foi de que o técnico priorizou um simbolismo emocional em detrimento de critérios táticos, algo que gerou críticas dentro da cúpula tricolor após a derrota.

Outro ponto que provocou forte desconforto ocorreu durante o segundo tempo do Choque-Rei disputado na Arena Barueri. A entrada do centroavante André Silva no lugar de opções que vinham atuando regularmente no torneio gerou irritação no banco de reservas.

De acordo com relatos de pessoas próximas ao elenco, os atacantes Ferreira e Tapia demonstraram insatisfação ao serem preteridos no momento mais decisivo da competição. Ambos haviam participado de toda a campanha do clube no estadual, enquanto André Silva não entrava em campo havia cerca de oito meses.

O episódio acentuou a percepção de falta de diálogo entre comissão técnica e jogadores, aumentando o clima de tensão no ambiente do vestiário após a eliminação.

Logo após a derrota para o Palmeiras, um episódio ocorrido no retorno da delegação à capital paulista contribuiu para ampliar o desgaste. Dentro do ônibus que deixava a Arena Barueri, enquanto jogadores e dirigentes ainda lamentavam a queda no torneio, Crespo e integrantes de sua comissão foram ouvidos comentando sobre a rodada do Campeonato Argentino.

A situação foi interpretada por dirigentes como um sinal de distanciamento emocional em relação ao momento do clube.

 Hernán Crespo, ex-técnico do São Paulo - Foto: IconSport
 Hernán Crespo, ex-técnico do São Paulo – Foto: IconSport

O episódio ganhou peso nos bastidores porque ocorreu poucas horas depois de uma das derrotas mais sensíveis do início da temporada, agravando a percepção de que o treinador não estava totalmente conectado com a frustração do grupo.

Se a derrota no clássico já havia abalado o ambiente interno, a decisão tomada por Crespo logo depois do jogo ampliou ainda mais o desgaste com a diretoria.

O treinador concedeu três dias e meio de folga ao elenco após a eliminação, algo considerado exagerado pela cúpula são-paulina.

A situação se agravou quando, ainda na noite do domingo, o argentino embarcou para seu país natal. Dentro do clube, surgiu a impressão de que a viagem já estaria planejada antes mesmo da semifinal.

Para dirigentes, o gesto foi interpretado como um sinal de pouca confiança na classificação do time, o que contribuiu para aumentar a irritação com a comissão técnica.

Na segunda-feira seguinte à eliminação, o executivo de futebol Rui Costa e o gerente esportivo Rafinha foram até o CT da Barra Funda com o objetivo de conversar com jogadores e integrantes da comissão técnica.

No entanto, nenhum membro da comissão comandada por Crespo estava presente no local naquele momento, o que gerou ainda mais desconforto entre dirigentes.

Curiosamente, parte do próprio elenco decidiu retornar ao centro de treinamento no dia seguinte, mesmo durante o período de folga. Os atletas encontraram apenas o preparador físico da comissão no local, situação que reforçou o clima de desorganização percebido internamente.

Apesar de todos os episódios anteriores, a derrota para o Palmeiras e a chamada “superfolga” concedida ao elenco foram apontadas como os fatores decisivos para a demissão do treinador.

Nos bastidores do clube, a expectativa da diretoria era de conquistar o Campeonato Paulista neste início de temporada. A eliminação precoce frustrou o planejamento esportivo.

Além disso, dirigentes passaram a avaliar que Crespo e sua comissão tratavam o estadual com menor prioridade, percepção que ampliou a distância entre treinador e diretoria.

Outros episódios também desgastaram relação

A convivência entre Crespo e a cúpula do futebol do São Paulo já vinha sendo testada por outros acontecimentos ao longo das últimas semanas.

Um deles ocorreu no último dia da janela de transferências. O treinador entrou em contato com dirigentes para sugerir a contratação de um jogador argentino, apresentado como uma possível oportunidade de mercado.

A insistência do técnico não teve sucesso. A resposta da diretoria foi de que o clube não pretendia investir em um estrangeiro pouco conhecido, considerado um risco semelhante ao de contratações anteriores que não tiveram retorno esportivo.

À esquerda, Rui Costa e à direita Hernán Crespo - Foto: Rubens Chiri e Paulo Pinto/São Paulo FC
À esquerda, Rui Costa e à direita Hernán Crespo – Foto: Rubens Chiri e Paulo Pinto/São Paulo FC

Outro episódio que gerou desconforto foi a ausência do treinador em treinamentos antes da partida contra a Portuguesa, também pelo Campeonato Paulista. Crespo viajou à Argentina antes do confronto, decisão que foi mal recebida pela diretoria, sobretudo após o resultado negativo.

Internamente, dirigentes avaliaram que aquela derrota teve impacto direto na campanha tricolor, já que o time terminou a fase classificatória em posição intermediária e sem vantagem de mando de campo nos confrontos eliminatórios.

Além disso, havia um entendimento de que declarações públicas e até no dia a dia com os jogadores não eram das melhores, principalmente pelo pessimismo de Crespo. No dia 24 de janeiro, depois da derrota por 3 a 1 para o Palmeiras, ainda pelo Paulistão, o treinador colocou o São Paulo na briga contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro.

“Estamos preocupados, mas temos três rodadas, com Santos, Primavera e Ponte Preta, pode acontecer de tudo (no Paulistão) (…) Temos futuro. Mas o futuro, como eu falei, o Brasileirão, 45 pontos. Esse é o futuro”, disse o treinador à época.

A declaração pegou muito mal no CT da Barra Funda. O entendimento interno é de que o São Paulo não tem elenco para brigar contra o rebaixamento e que este tipo de frase pública é mais alarmista do que realista.

Atritos com jogadores experientes

Além das divergências com dirigentes, o relacionamento de Crespo com alguns dos atletas mais experientes do elenco também enfrentava dificuldades.

Jogadores como Lucas Moura e Cédric Soares, nomes importantes dentro do grupo, teriam mantido uma relação distante com o treinador.

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Também pesaram nos bastidores críticas feitas por Crespo às contratações realizadas pelo clube. O técnico demonstrou insatisfação com as chegadas do volante Danielzinho e do lateral Lucas Ramon, ambos ex-Mirassol e considerados apostas da diretoria para a temporada.

Tudo isso somado fez com que o São Paulo, nesta segunda-feira (09), optasse por demitir Hernán Crespo, que foi pego de surpresa. Pessoas próximas ao treinador alegam que ele não esperava a demissão, principalmente por causa do bom início no Campeonato Brasileiro e também por ter respeitado as dificuldades financeiras do clube desde sua chegada, no ano passado.

São Paulo agora busca novo comandante

Com a saída confirmada, o São Paulo iniciou imediatamente a busca por um novo treinador para comandar a equipe na sequência da temporada. A diretoria trabalha com a necessidade de reorganizar o ambiente interno e preparar o elenco para os próximos desafios.

O calendário do clube já apresenta compromissos importantes pelo Campeonato Brasileiro nas próximas semanas.

Próximos jogos do São Paulo:

  • Chapecoense (São Paulo) – 12/03, 20h – Brasileirão
  • Red Bull Bragantino (Bragança Paulista) – 15/03, 20h30 – Brasileirão
  • Atlético-MG (Belo Horizonte) – 18/03, 20h30 – Brasileirão

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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