Nem mito, nem acaso: a ciência explica as chuvas de Interlagos no GP de São Paulo

Com a aproximação de mais um Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, o tema do momento volta a ser o mesmo que todo ano domina as conversas entre fãs e pilotos: vai chover em Interlagos? Conhecido por ser um dos circuitos mais imprevisíveis do calendário, o Autódromo José Carlos Pace desafia meteorologistas, engenheiros e estrategistas com suas mudanças súbitas de tempo.

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Nos últimos dois anos, o céu de Interlagos foi protagonista tanto quanto os carros. Em 2024, a chuva intensa obrigou o adiamento do treino classificatório de sábado para domingo de manhã. Já em 2023, o temporal foi tão violento que “fez o dia virar noite” no meio da definição do grid de largada.

O fenômeno é tão recorrente que ganhou até uma teoria popularizada por Galvão Bueno:

“A chuva vem da represa!”

Mas será que ela vem mesmo? A resposta é mais complexa do que parece.

O autódromo está situado entre duas represas gigantes, Guarapiranga, a oeste, e Billings, a leste, separadas por menos de dois quilômetros do traçado da pista. O nome Interlagos (“entre lagos”) vem justamente dessa posição geográfica, inspirada na cidade suíça Interlaken.

A grande quantidade de água nas represas realmente influência o microclima local, aumentando a umidade e a evaporação. Ainda assim, segundo o meteorologista César Soares, do Climatempo, não é correto afirmar que a chuva vem diretamente das represas:

Isso não é bem verdade. Existem outras circulações que também podem levar chuva para a região de Interlagos. Então não é bem assim que funciona.”

Soares explica que as represas participam da dinâmica climática, mas são apenas um dos muitos elementos que tornam Interlagos tão peculiar. A água contribui para instabilidades atmosféricas, mas há frentes frias, baixas pressões e até correntes de vento que desempenham papéis decisivos.

O que realmente diferencia o autódromo é a confluência de fatores meteorológicos. Localizado na zona sul da capital paulista, Interlagos está no ponto de encontro de ventos marítimos, massas de ar frio vindas do sul e correntes úmidas da Amazônia, conhecidas como “rios voadores”.

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O estado de São Paulo está em uma região geográfica muito sujeita a sistemas vindos do sul do Brasil: frentes frias, ciclones tropicais, baixas pressões. Além disso, os rios voadores trazem umidade do Norte e do Centro-Oeste, criando condições ideais para tempestades”, explicou Soares.

A brisa marítima é outro componente fundamental. No fim da tarde, quando o ar do oceano sobe em direção ao continente, há uma ascensão rápida de massas úmidas, o que provoca pancadas de chuva localizadas, justamente o cenário clássico das corridas paulistas.

Forte temporal se formando em Interlagos - Foto: Divulgação/Fórmula 1
Forte temporal se formando em Interlagos – Foto: Divulgação/Fórmula 1

“Interlagos sofre muito com a circulação da brisa do mar. É comum ter pancadas no fim de tarde exatamente por conta dessa influência marítima”, acrescenta o meteorologista.

Além dos elementos naturais, a urbanização também interfere. O asfalto da pista e o concreto ao redor retêm calor, intensificando o processo de aquecimento local. Esse calor sobe, encontra a umidade proveniente das represas e do ar marítimo, e o resultado é a formação de grandes nuvens carregadas sobre a região.

O fenômeno cria o que os especialistas chamam de microclima urbano, tornando Interlagos um dos lugares mais meteorologicamente ativos da cidade de São Paulo, algo que emociona os fãs, mas causa dor de cabeça às equipes de F1.

Historicamente, o GP do Brasil era disputado no início do ano, entre março e abril, mas desde 2004 passou a ocupar o fim da temporada, e, ironicamente, continuou sendo afetado pela chuva.

Em 2003, a famosa prova vencida por Giancarlo Fisichella foi interrompida na volta 54 após uma sequência de acidentes provocados pelo aguaceiro. A mudança de data, que buscava escapar do período chuvoso, acabou colocando o GP em outubro e novembro, justamente meses marcados pelo retorno das chuvas à capital paulista.

GP de São Paulo de 2003, vencido por Giancarlo Fisichella - Foto: Arquivo/Fórmula 1
GP de São Paulo de 2003, vencido por Giancarlo Fisichella – Foto: Arquivo/Fórmula 1

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a região de Interlagos registrou média de 127,7 mm de chuva em novembro entre 2018 e 2024. Em contraste, agosto, o mês mais seco, apresentou média de apenas 44,7 mm.

A coincidência de horários também contribui para o espetáculo climático. As corridas costumam ocorrer entre o fim da manhã e o meio da tarde, período em que o aquecimento solar atinge o pico.

Duas horas da tarde é o ápice do aquecimento, quando a movimentação atmosférica aumenta e as grandes nuvens de temporal se formam”, detalha Soares.

Para o GP deste ano, as previsões indicam maior chance de chuva no sábado (8), dia da corrida sprint, com 50% de possibilidade de pancadas durante a manhã. Os fãs de pista molhada, portanto, podem esperar mais uma dose de emoção e imprevisibilidade.

Entre mitos e meteorologia, a magia continua

Se a chuva vem ou não da represa, talvez nunca seja uma questão totalmente resolvida. Mas o que é certo é que Interlagos respira emoção em cada gota. A combinação de represas, brisa marítima, relevo e calor urbano cria um dos ambientes mais únicos da Fórmula 1.

E é justamente essa mistura, de engenharia, natureza e imprevisibilidade, que faz com que, ano após ano, pilotos e torcedores segurem a respiração diante do mesmo dilema:

“Vai chover em Interlagos?”

A resposta, como sempre, está nas nuvens.

Programação oficial – GP de São Paulo 2025

Local: Autódromo José Carlos Pace (Interlagos) – São Paulo
Data: 7 a 9 de novembro de 2025
Etapa: 21ª da temporada

DiasSessãoBrasil (BRT)
Sexta-feira (7)Treino livre11h30
Sexta-feira (7)Classificação Sprint15h30
Sábado (8)Corrida Sprint11h00
Sábado (8)Classificação15h00
Domingo (9)Corrida14h00
Circuito do Autódromo José Carlos Pace (Interlagos) – Foto: Reprodução/F1
Circuito do Autódromo José Carlos Pace (Interlagos) – Foto: Reprodução/F1

Transmissão

TV Band exibe a classificação e a corrida na TV aberta, enquanto a Bandsports transmite todos os treinos e a classificação na TV fechada.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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