Caster Semenya, bicampeã olímpica, promete lutar contra a decisão do COI sobre os testes de gênero nos Jogos Olímpicos

Semenya afirmou que pretende lutar contra a introdução desses testes, que nas palavras dela “é uma política que prejudica os direitos das mulheres.” Anteriormente a bicampeã esteve no centro de uma das principais controvérsias envolvendo testes de gênero devido ao longo processo judicial contra a World Athletics, órgão máximo internacional responsável pelo atletismo. 

Semenya tem o hiperandrogenismo, o excesso de hormônios andrógenos no corpo feminino, no caso dela uma testosterona acima dos níveis considerados normais para uma mulher; isso configura o Diferenças no Desenvolvimento Sexual (DSD). Ela passou anos fazendo e refazendo testes de gênero e utilizando medicações que devido aos efeitos colaterais a faziam se sentir constantemente mal, ela acredita que o COI errou na análise científica.

A atleta de 35 anos disse à Reuters:

“Não há comprovação científica de que a DSD dê vantagem a uma atleta. Eu já passei por isso, eu já fiz isso. Não existe essa história. Há pessoas que são iludidas. Há pessoas que estão convencidas de que, pelo fato de uma mulher ser masculina, de uma mulher nascer com condições intersexuais, com DSD, mencionaram todas essas coisas (que elas têm uma vantagem). Mas o que eu digo é, se você quer ser um grande atleta, é através de muito trabalho.”

“Nós seremos vocais sobre isso, nós vamos fazer barulho até sermos ouvidas. Agora é uma questão das mulheres se levantarem e dizerem ‘Chega!’. Não vamos mais aceitar que nos digam como fazer as coisas. Se realmente somos aceitas como mulheres para participar, por quê minha aparência, minha voz ou minhas partes íntimas precisam ser um problema para que eu possa praticar o esporte?”

A DSD é um grupo de condições raras que envolvem genes, hormônios e órgãos reprodutivos; por exemplo, algumas pessoas com DSD possuem a aparência de uma mulher e se identificam como tal, mas possuem cromossomos XY e níveis altos de testosteronas. A nova política do COI afirma em seu documento que a inclusão de “atletas com DSD XY sensíveis a andrógenos” nas categorias femininas que depende de força, potência ou resistência “vai fundamentalmente contra a garantia de justiça, segurança e integridade em competições de elite.”

O COI afirmou que o teste será aplicado a todas as atletas que desejem competir na categoria feminina, e o teste será realizado por meio de coleta de amostra da mucosa bucal (bochecha) ou análise de saliva. Atletas que testarem positivo para o gene SRY serão investigadas mais a fundo, pois o SRY se localiza no cromossomo Y e é responsável pelo desenvolvimento de características masculinas.

A dona de dois títulos olímpicos e três mundiais, completou: “O que essa decisão faz é prejudicar as mulheres. Prejudica a dignidade das mulheres. Viola os direitos das mulheres porque sabemos, historicamente, que esses testes já falharam antes.”

“As mulheres precisam ser celebradas. As mulheres não devem ser questionadas sobre seu gênero. Por que seu físico é assim? Por que elas têm essa aparência? Isso não importa. Nem mesmo o nível hormonal. Essas são coisas que são obviamente genéticas e não podem ser controladas.”

Semenya afirmou que a presidente do COI, Kisrty Coventry, primeira mulher e primeira africana a ocupar o cargo, não a consultou adequadamente e nem consultou outros atletas com DSDs sobre a política. 

“Eles nos enviaram uma carta no dia em que iriam publicar a nova política. Se você vai consultar, consulte com sinceridade. Não consulte apenas para cumprir formalidades. Infelizmente, eles marcaram a opção errada.” 

Para alguns especialistas, essa nova política se alinha com o posicionamento do governo de Donald Trump que baniu atletas transgêneros de competições em solo norte-americano, a ordem executiva intitulada “Mantendo os Homens Fora dos Esportes Femininos” foi publica em fevereiro de 2025 e prometeu negar vistos para algumas atletas que tentassem competir em Los Angeles 2028; a ordem também ameaçou “rescindir todos os fundos” de organizações que permitissem que atletas transgêneros participassem de esportes femininos. Em poucos meses, o órgão olímpico norte-americano atualizou suas diretrizes para as federações esportivas nacionais, alegando uma obrigação de cumprir as determinações da Casa Branca.

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