Vale alimentação no Pix? ‘Ticket’ pode passar por ruptura em mercado que movimenta quase R$ 200 bilhões

Um dos mercados mais tradicionais e concentrados da economia brasileira começa a dar sinais de transformação. O setor de vale alimentação e vale refeição, que movimenta perto de R$ 200 bilhões por ano e atende cerca de 22 milhões de trabalhadores formais, ainda opera majoritariamente sob um modelo criado na década de 1970, quando o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) foi instituído. Agora, o avanço do Pix reacende o debate sobre eficiência, custos e inovação nesse segmento.

A proposta apresentada pelo Valepix, primeira empresa brasileira a usar a infraestrutura do Pix para esse tipo de benefício, surge em um contexto de baixa concorrência e altas taxas operacionais. No modelo tradicional, o pagamento é feito por meio de bandeiras fechadas, com custos que recaem sobre restaurantes e supermercados. Levantamentos de associações do setor indicam que as taxas cobradas dos estabelecimentos podem chegar a 5%, além de prazos de recebimento que ultrapassam 30 dias, comprometendo o fluxo de caixa, especialmente de pequenos negócios.

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Em contrapartida, dados públicos do Banco Central mostram que as transações via Pix têm custo significativamente menor e liquidação quase imediata. Mesmo após a edição do Decreto 12.712, de 2025, que limitou as taxas do PAT a 3,6%, o modelo tradicional segue mais caro do que operações baseadas na infraestrutura do Pix. Estimativas de mercado apontam que essas ineficiências representam um custo sistêmico próximo de R$ 10 bilhões por ano, sem retorno proporcional em inovação ou melhoria de serviço.

A lógica do Valepix é substituir o controle feito por redes credenciadas por um controle tecnológico automatizado. O trabalhador recebe o benefício em uma carteira digital e paga via Pix normalmente. Em tempo real, o sistema cruza a transação com o CNAE do estabelecimento: se a atividade estiver enquadrada nas regras do PAT, o pagamento é autorizado; caso contrário, é bloqueado. O processo elimina intermediários e amplia a aceitação do benefício, já que o Pix está presente em mais de 98% dos estabelecimentos do país.

Esse movimento é um sinal clássico de reprecificação de mercado. Setores grandes, recorrentes e pouco inovadores costumam ser pressionados quando passam a operar sobre infraestruturas mais eficientes. No caso dos benefícios corporativos, a entrada do Pix tende a redistribuir valor entre empresas, trabalhadores e lojistas, reduzindo custos operacionais e aumentando a transparência.

Além do vale alimentação e refeição, o Valepix também aposta em modelos mais flexíveis para empresas que contratam profissionais PJ e, em desenvolvimento, em soluções voltadas a programas públicos municipais. A estratégia reforça a leitura de que a disputa no setor não será apenas por novos produtos, mas pela modernização estrutural de um mercado que permaneceu praticamente inalterado por décadas.

Autor

  • Rowena Romagnoli

    22 anos de existência. Diretora das editorias de economia e tecnologia do portal Ponto360. Graduanda em jornalismo pela Estácio de Sá, atuando -também- em assessoria de imprensa há pouco mais de 1 ano.

    Apaixonada por tudo aquilo que traz felicidade à mente e ao corpo. Nas horas vagas, mãe de um lindo gato preto.

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