Dependência de ímãs estratégicos expõe risco silencioso para a indústria brasileira; especialista explica

A concentração global da cadeia de terras-raras e ímãs de neodímio já impacta diretamente custos, prazos e competitividade da indústria brasileira, especialmente em setores ligados à automação, energia renovável e mobilidade elétrica. Apesar de possuir reservas relevantes desses minerais, o Brasil segue altamente dependente da importação de componentes estratégicos, em um cenário cada vez mais marcado por decisões geopolíticas e restrições regulatórias.

As terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias de alto desempenho. Entre eles, o neodímio se destaca por ser a base dos ímãs permanentes de alta eficiência, fundamentais para motores elétricos modernos. “O neodímio permite motores mais leves, compactos e com menor consumo de energia”, explica Rodolfo Granada Midea, CEO da Fácil Negócio Importação.

Segundo ele, cada carro elétrico utiliza entre 1 e 2 quilos desses ímãs, enquanto turbinas eólicas podem demandar dezenas de quilos por unidade, o que torna o fornecimento um fator crítico para a viabilidade desses projetos.

Embora o Brasil possua reservas minerais, o principal gargalo está na transformação industrial, e não na extração. “Produzir ímãs de neodímio não é apenas extrair minério. Envolve processamento químico, formação de ligas metálicas, controle rigoroso de especificações técnicas e escala industrial”, afirma Midea. Hoje, o país exporta matéria-prima e importa produtos de alto valor agregado, uma dinâmica que impacta diretamente a balança comercial, a competitividade industrial e a soberania tecnológica.

LEIA TAMBÉM: Presos rendem policial e tentam fugir do Complexo de Gericinó durante a madrugada

O risco se agrava pelo alto grau de concentração global da cadeia. Entre 80% e 90% da produção mundial de ímãs de neodímio está concentrada na China, o que transforma decisões internas do país asiático em fatores de impacto imediato para o Brasil.

Qualquer mudança em políticas ambientais, restrições à exportação ou incentivos internos na China afeta preços, prazos e disponibilidade no mercado brasileiro”, explica o executivo.

Para a indústria nacional, isso se traduz em perda de previsibilidade e maior dificuldade de planejamento produtivo, elevando o risco operacional.

Nos últimos anos, a cadeia sofreu uma sequência de choques simultâneos. “Pandemia, gargalos logísticos, aumento abrupto de fretes, volatilidade cambial e avanço de exigências regulatórias”, enumera Midea. Um ponto sensível foi a ampliação de controles sobre materiais classificados como de uso dual, com aplicação civil e potencial sensível. “Licenças e certificações adicionais passaram a ser exigidas, aumentando prazos, custos e complexidade do processo de importação”, relata.

Os impactos são mais imediatos em automação industrial, energia eólica e mobilidade elétrica, setores que dependem de grandes volumes de ímãs com especificações técnicas rigorosas. “Não é um componente facilmente substituível”, ressalta. Em equipamentos médicos, embora o volume seja menor, o efeito é ainda mais crítico, já que qualquer atraso afeta cadeias sensíveis e aplicações essenciais, com reflexos diretos na prestação de serviços e na segurança operacional.

No chão de fábrica, a instabilidade se manifesta rapidamente. “Primeiro vêm o aumento de custos e o atraso de projetos. Em cenários mais graves, ocorre a paralisação de linhas produtivas”, afirma o especialista. Ele cita casos em que empresas precisaram reprogramar produção, adiar lançamentos e renegociar contratos, afetando faturamento, empregos e decisões de investimento. “São impactos que nem sempre aparecem de imediato, mas comprometem a competitividade no médio prazo”, alerta.

Diante desse cenário, o executivo defende uma mudança de mentalidade por parte das empresas brasileiras. “Esses insumos precisam ser tratados como estratégicos, não como commodities”, diz. Entre as medidas necessárias estão planejamento de estoque, diversificação de fornecedores, especificação técnica precisa e inteligência regulatória. Segundo ele, gestão de cadeia, compliance e visão regulatória hoje pesam tanto quanto o preço nas decisões industriais.

Apesar dos riscos, há espaço para avanço. Rodolfo afirma que o Brasil tem potencial para ir além da extração e participar da fabricação de ímãs e componentes de maior valor agregado. Para isso, seria necessário investimento em tecnologia, escala industrial, capacitação técnica e políticas públicas de incentivo. “Esse debate precisa sair do nível operacional e entrar no planejamento estratégico do país”, defende, com maior coordenação entre setor público e privado.

Para os próximos cinco a dez anos, o diagnóstico é claro. “O maior risco é aprofundar a dependência externa justamente quando esses materiais se tornam mais estratégicos, regulados e disputados globalmente”, afirma. Ao mesmo tempo, a oportunidade está em transformar essa vulnerabilidade em vantagem competitiva, estruturando uma cadeia nacional capaz de atender à mobilidade elétrica, energia renovável e automação industrial, posicionando o Brasil de forma mais ativa na economia de baixo carbono.

Autor

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *