Apesar da consolidação da China como principal parceira comercial do Brasil, o país ainda enfrenta entraves estruturais que limitam a expansão do comércio exterior. Um dos principais gargalos é o acesso ao crédito para operações de importação. Estimativas do Banco Mundial indicam que o Brasil apresenta um déficit de cerca de US$ 49 bilhões em financiamento ao comércio exterior, restringindo a capacidade das empresas de manter e ampliar seus fluxos internacionais.
Dados do Conselho Empresarial Brasil-China mostram que, em 2025, o fluxo comercial entre Brasil e China alcançou US$ 171 bilhões, consolidando a relevância da relação bilateral. No mesmo período, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços registrou que a China respondeu por 25,3% de todas as importações brasileiras, sendo a principal origem dos produtos adquiridos pelo país no exterior.
LEIA TAMBÉM: Investimentos em 2026 exigem cautela diante de juros altos e ano eleitoral
Mesmo com esse volume expressivo, o acesso restrito ao financiamento segue como um obstáculo relevante, especialmente para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Segundo o Banco Mundial, a lacuna total de crédito para esse segmento no Brasil chega a US$ 600 bilhões. Dentro desse contexto, as empresas de médio porte exercem um papel estratégico na economia nacional, apesar de representarem menos de 1% do total de companhias.
De acordo com a Fundação Dom Cabral, essas empresas são responsáveis por 20% dos empregos formais (CLT) e 25% da massa salarial do país, além de apresentarem forte desempenho financeiro. Ainda assim, o acesso limitado ao crédito compromete sua capacidade de escalar operações, diversificar fornecedores e expandir fluxos comerciais, afetando diretamente o dinamismo do comércio exterior brasileiro.
Diante desse cenário, mecanismos internacionais de mitigação de risco ganham protagonismo. A China, por exemplo, conta com a SINOSURE, seguradora de crédito à exportação controlada pelo governo chinês. O instrumento permite que exportadores ofereçam prazos de pagamento estendidos a compradores estrangeiros, sem exigir garantias bancárias tradicionais ou a contratação de crédito no país importador.
Em 2024, o mecanismo assegurou mais de US$ 860 bilhões em crédito à exportação de curto prazo, dentro de um volume total de seguros que superou US$ 1,02 trilhão. Esse tipo de cobertura respondeu por cerca de 24% das exportações de mercadorias da China, reforçando o papel do crédito como ferramenta estratégica de política industrial.
No Brasil, existe a Axton Global, facilitadora no acesso a esse modelo. Segundo Igor Sokolov, sócio-diretor da companhia, o crédito comercial com cobertura da SINOSURE tem se mostrado uma alternativa relevante para importadores brasileiros.
“As empresas conseguem negociar prazos de 90 a 120 dias diretamente com fornecedores chineses, melhorando a gestão do fluxo de caixa e reduzindo a pressão sobre o capital de giro”, afirma.
Sokolov destaca que o modelo é amplamente utilizado na Ásia, mas ainda pouco difundido no Brasil. “Muitos importadores precisam pagar antes mesmo de receber as mercadorias ou recorrer a crédito caro. Com a SINOSURE, o importador recebe primeiro e paga depois, com a operação protegida contra inadimplência. Isso reduz custos financeiros, aumenta a previsibilidade e fortalece toda a cadeia comercial”, explica.
A principal diferença em relação a linhas tradicionais, como o Finimp, está na origem do crédito. Enquanto o financiamento bancário brasileiro compromete o limite local das empresas, o crédito garantido pela SINOSURE se origina na China, preservando o capital de giro no Brasil. “Para a China, financiar exportações é política industrial. Para as empresas brasileiras, é uma alternativa menos burocrática e especialmente atrativa para companhias de médio porte”, conclui o executivo.









