O Teatro de Mariupol reabre neste domingo (28) na cidade ucraniana atualmente sob ocupação russa, quase três anos após ter sido destruído em um bombardeio que matou centenas de civis durante a ofensiva de 2022. A reabertura, celebrada por autoridades pró-Moscou como símbolo de reconstrução, é alvo de críticas de artistas, ex-moradores e observadores internacionais.
LEIA TAMBÉM: “Avatar: Fogo e Cinzas” eleva discurso ambiental, mas tropeça no maniqueísmo
Segundo autoridades instaladas por Moscou, a reconstrução foi concluída após um longo processo de restauração e custou cerca de 13 bilhões de rublos (aproximadamente US$ 169 milhões). As obras teriam sido conduzidas por especialistas de São Petersburgo e incluíram a recuperação da fachada histórica, além da instalação de equipamentos modernos, como um lustre de cristal de 2,5 toneladas.
Contexto histórico do ataque ao Teatro de Mariupol
O teatro tornou-se um dos principais símbolos da guerra na Ucrânia após o ataque aéreo ocorrido em 2022. À época, a palavra “crianças” estava escrita em letras grandes do lado de fora do prédio, indicando a presença de civis no interior. Investigações independentes da Anistia Internacional e da Associated Press confirmaram que o edifício foi atingido por um bombardeio russo, com estimativas de até 600 mortos. A Rússia, no entanto, nega responsabilidade e atribui o ataque às forças ucranianas.
Confira “Filhos do Silêncio” de Andrea dos Santos
Apesar da controvérsia, autoridades russas classificam a reabertura como parte do “renascimento de Mariupol” e de um esforço mais amplo de reconstrução cultural nos territórios ocupados. Para críticos internacionais, no entanto, a iniciativa representa uma tentativa de reescrever a memória do conflito.
Reconstrução do teatro sob ocupação russa
A reabertura foi anunciada por Denis Pushilin, líder pró-Moscou da região de Donetsk. A cerimônia contou com a presença do governador de São Petersburgo, Alexander Beglov, e do ator russo Vladimir Mashkov. Inicialmente prevista para 24 de dezembro, com a apresentação da peça russa A Flor Escarlate, a inauguração acabou ocorrendo no dia 28 e foi transmitida pela televisão estatal russa.
Cerimônia de reabertura e autoridades presentes
Antigos atores e ex-residentes ucranianos classificaram a reabertura como um ato de cinismo, comparando-a a “dançar sobre ossos” e denunciando o que chamam de processo de russificação cultural da cidade. O conselho municipal de Mariupol, que atua no exílio, acusa as autoridades de transformar um local associado a um possível crime de guerra em palco para produções russas e soviéticas.
Reações, críticas e acusações de propaganda cultural
O fotógrafo local Evgeny Sosnovsky, atualmente em Kyiv, criticou publicamente o evento. Já o ex-ministro do Desenvolvimento Econômico e Comércio da Ucrânia, Tymofiy Mylovanov, afirmou em sua conta na plataforma X que “os russos estão dançando sobre os ossos dos ucranianos que eles mataram”.
Apesar das manifestações contrárias, a cerimônia foi amplamente divulgada pela mídia estatal russa como um triunfo cultural. Para a comunidade ucraniana no exílio e artistas críticos, no entanto, a reabertura simboliza a perda de memória e o apagamento das narrativas das vítimas. Observadores internacionais alertam que, sem reconhecimento do massacre e sem participação da população local, a iniciativa pode aprofundar tensões e reforçar a percepção de ocupação e controle.








