Não é de hoje que os espetáculos teatrais conseguem “tocar” em questões sensíveis. Em algumas ocasiões, abordam em suas narrativas assuntos que perturbam, que mexem com os alicerces da sociedade ou com padrões e paradigmas estabelecidos. Em outros casos, chamam a atenção do público para problemáticas pouco discutidas, negligenciadas ou silenciadas pelo desconforto que provocam nas pessoas.
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O teatro, ao longo de sua história, teve e ainda tem esse papel marcante na sociedade. Da mesma forma, ocorre com a figura de Joana D’arc (1412-1431), a santa padroeira da França, a camponesa guerreira conhecida por seus feitos na Guerra de Cem Anos, a mulher considerada herege e sentenciada à morte na fogueira que, posteriormente, tornou-se mártir e santa pela Igreja Católica.

Joana D’arc é figura marcante no imaginário popular e, consequentemente, nas artes. Ela tem sido representada, ao longo dos anos, de diversas maneiras em contextos que abordam perspectivas diferentes acerca de sua história e de sua personalidade.
Em “Jeanne Dark”, a diretora Lies Pauwels teve a intenção de explorar a psicologia de Joana d’Arc e acreditou que pessoas com anorexia poderiam oferecer um olhar revelador sobre a jovem francesa, abordando camadas da personalidade que, até então, não haviam sido representadas na arte.
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A abordagem, evidentemente, suscitou comentários, causou estranhamento e até indignação. Logo quando houve o convite para pessoas com transtornos alimentares participarem da peça, houve quem não gostou. Na ocasião, como relatam os jornais franceses, terapeutas e pais de meninas com anorexia criticaram a iniciativa.
A surpresa, no entanto, foi Janine Rickenbach, uma atriz que se sentiu motivada a participar depois da polêmica causada pela mídia. Segundo escreveu Alex Marshall para o “The New York Times”, Rickenbach sofre de anorexia há décadas e, quando subiu ao palco do Teatro de Basileia, na estreia ocorrida na semana passada, sabia que muitas pessoas a julgariam tanto pela aparência quanto pela atuação.

Na peça em questão, a anorexia não é abordada de forma explícita. Joana D’arc, inclusive, é interpretada por um ator, Sven Schelker. Porém, um momento de grande impacto é quando Janine Rickenbach se dirige à plateia e questiona:
“O que vocês estão pensando agora?”, perguntou ela. “Estão pensando: ‘Meu Deus…'” Isso aconteceu “por causa da minha aparência?”, questiona ela, “ou porque estou aqui neste palco? Porque minha luta é visível?”
A personagem de Janine Rickenbach não possui nome na peça, mas interage com Joana D’arc em alguns momentos. Ela afirmou que se sentiu liberta ao interpretar o papel.
A peça ficará em cartaz até 22 de maio de 2026 no Teatro de Basileia.









