Há 53 anos, entre os dias 7 e 9 de janeiro de 1973, seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foram presos, torturados e executados pelos órgãos de repressão da ditadura militar brasileira no episódio que ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento, ocorrido na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco.
A versão oficial divulgada na época falava em confronto armado, mas investigações posteriores, documentos e depoimentos comprovaram que se tratou de execuções sumárias, cuidadosamente encenadas para ocultar o crime de Estado.
Leia mais: Stranger Things 5 entrega espetáculo, mas tem gosto de picolé de chuchu
A operação foi articulada com o apoio de José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, agente infiltrado nos movimentos de resistência, responsável por entregar os militantes às forças repressivas.
Após a tortura, os corpos foram levados à chácara para simular um tiroteio, prática recorrente do regime para legitimar assassinatos políticos e controlar a narrativa pública.
O massacre tornou-se um dos episódios mais simbólicos da repressão no Nordeste, não apenas pela brutalidade, mas também pelas histórias interrompidas de seus militantes jovens, estrangeiros, estudantes, trabalhadores e ex-militares que decidiram enfrentar a ditadura.
Soledad Barrett Viedma (1945–1973) Militante paraguaia da VPR, Soledad teve sua trajetória marcada desde cedo pela violência política. Filha de um militante comunista assassinado no Paraguai, viveu o exílio ainda jovem e passou por diversos países da América Latina antes de se estabelecer no Brasil.
Em Pernambuco, atuava na reorganização da resistência clandestina da VPR.Soledad estava grávida quando foi capturada, torturada e executada. Dias antes de sua morte, escreveu um poema, hoje lembrado como um testemunho de lucidez, coragem e consciência histórica diante da morte iminente.
Sua trajetória também inspirou o cantor e compositor uruguaio Daniel Viglietti, que lhe dedicou a canção “Soledad Barrett”, transformando sua história em símbolo da luta latino-americana contra as ditaduras. A memória de Soledad atravessou fronteiras e permanece como um dos rostos mais emblemáticos da resistência feminina à repressão.
Confira “Filhos do Silêncio” de Andrea dos Santos
Pauline Philipe Reichstul (1947–1973)Nascida na então Checoslováquia, Pauline era psicóloga e militante da VPR. Veio ao Brasil movida pela solidariedade internacional e pelo compromisso com a luta contra o autoritarismo. Atuava na articulação política e organizativa da VPR no Nordeste. Foi presa e assassinada na mesma operação repressiva, tendo sua morte ocultada sob a falsa narrativa de confronto.
Eudaldo Gomes da Silva (1947–1973)Brasileiro, ligado ao movimento estudantil, Eudaldo integrou a VPR ainda muito jovem. Atuava na reorganização da resistência no Nordeste e vivia na clandestinidade. Tinha cerca de 25 anos quando foi capturado, torturado e executado pela repressão.
Evaldo Luiz Ferreira de Souza (1942–1973)Ex-militar, Evaldo rompeu com o regime após o golpe de 1964 e passou a integrar a luta armada contra a ditadura. Teve passagem pelo exterior antes de retornar ao Brasil para atuar na clandestinidade. Sua execução na Chácara São Bento evidencia a perseguição implacável do regime também contra dissidentes das Forças Armadas.
Jarbas Pereira Marques (1949–1973) Militante da VPR, Jarbas participou da resistência política no Nordeste em um período de forte repressão. Assim como os demais companheiros, foi preso, torturado e morto, tendo sua história silenciada por décadas pela versão oficial do regime.
José Manoel da Silva (1940–1973)Integrante da VPR, foi capturado no contexto da operação que culminou no massacre. Sua morte, assim como a dos demais militantes, foi apresentada como resultado de um suposto confronto, ocultando a prática sistemática de execuções extrajudiciais.
Passados 53 anos, o Massacre da Chácara São Bento permanece como uma ferida aberta na história brasileira. O episódio revela o uso da infiltração, da tortura, da execução e da manipulação da informação como políticas de Estado durante a ditadura militar.
Ao mesmo tempo, as histórias de seus militantes seguem vivas por meio da memória, da luta dos familiares, da pesquisa histórica e também da arte, como no caso de Soledad Barrett, eternizada em música e poesia.
Lembrar a Chácara São Bento não é apenas revisitar o passado, mas reafirmar o compromisso com a verdade, a memória e a justiça, em um país que ainda convive com as marcas e os silêncios do autoritarismo. Presentes hoje e para todo o sempre: Soledad, Pauline, Eudaldo, Evaldo, Jarbas e José Manoel.









