|Indicados ao Oscar| Uma batalha após a outra: Tiros, paranoia e a falência do herói americano

O antigo especialista em bombas agora parece anestesiado pela própria fuga da realidade (e pelas drogas) (Foto: Divulgação/ Warner Bros.)

Quais os mecanismos um militar pode usar para sequestrar a filha de um revolucionário em troca de entrar em uma sociedade secreta supremacista? Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, flerta com o modelo de clássico hollywoodiano recheado de perseguições e tiroteios, mas vai na contramão desse estereótipo ao oferecer uma crítica à nação da liberdade. O filme, apesar de pirotécnico e chamativo, soa assustadoramente atual, e não apenas uma demonstração de efeitos especiais. Polícia anti-imigração e organizações secretas supremacistas soam familiares, não?

Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) era membro da French 75, um grupo revolucionário que ia contra o Estado americano, e vivia a vida clandestina ao lado de Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) até ela ser presa, entregar os parceiros para a polícia e desaparecer. Bob, então, tem de fugir com uma nova identidade e uma filha deixada por Perfidia. Após 16 anos vivendo longe da luta armada, o mesmo militar que capturou Perfidia e a libertou volta para sequestrar Willa Ferguson (Chase Infiniti) e desencadeia uma série de batalhas pela cidade onde Bob foi se refugiar com a filha.

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O primeiro ato é um belo devaneio de memórias da revolução. Do auge e da queda da French 75 após a delação de Perfidia e estabelece as bases dramáticas da narrativa. PTA conduz este prólogo como um sonho antes de cair na realidade dura em que Bob vive no momento dos acontecimentos do filme. O antigo especialista em bombas agora parece anestesiado pela própria fuga da realidade (e pelas drogas). Sua apatia funciona como reflexo do apagamento da French 75. 

Filme conta a história de luta de um pai para resgatar a filha com um pano de fundo de um Estados Unidos não tão distópico como poderia ser (Foto: Divulgação/ Warner Bros.)

O filme conta a história de luta de um pai para resgatar a filha com um pano de fundo de um Estados Unidos não tão distópico como poderia ser. Atacando uma cidade sob o pretexto de “drogas e tacos”, Cel. Lockjaw (Sean Penn), o militar que volta para sequestrar Willa, nos apresenta um dos personagens mais repulsivos do cinema, apesar de ser muito próximo de exemplos da vida real. A obra de PTA nos mostra fogo, tiros e caos com imagens características de Hollywood, mas sem ser única e exclusivamente com o propósito de impressionar pela pirotecnia, como é comum. O filme usa desses recursos clássicos mas sempre com um toque de subversão, lembrando constantemente o cerne do filme: o herói não é o militar e sim um “tio” que sai por aí de pijama para fazer revolução. A violência do filme conta como as autoridades controlam as sociedades do jeito que eles querem, quando eles quiserem, mesmo que para interesses que chegam a ser cômicos de tão absurdos. 

Cel. Lockjaw, representação máxima de autoridade no filme, está no processo de iniciação em um grupo supremacista que promete poder e prestígio para os integrantes. PTA utiliza dessa situação, além de gancho para os acontecimentos do filme, para zombar dessas figuras que dominam os Estados Unidos. Ao que tudo indica, quanto mais racista um personagem é, mais estupido ele é. Durante o filme inteiro pessoas naturalmente oprimidas pelo Estado dificultam a realização de tarefas “simples”, considerando a força bruta desses agentes, humilhando esses personagens, sugerindo que a resistência coletiva é o único obstáculo real ao autoritarismo.

A trilha nos conduz para o desconforto, o absurdo e a tensão em uma performance digna de Oscar do artista da banda Radiohead (Foto: Divulgação/ Warner Bros.)

O maior mérito do filme é conduzir toda essa história, relativa a contemporaneidade, com uma linguagem cinematográfica muito bem lapidada. A câmera e a trilha sonora de Jonny Greenwood dão o tom de cada cena com o refino que um grande nome do cinema tem. Em um primeiro momento, a trilha varia entre um épico e um drama, representando a vida na French 75 e a queda dos revolucionários — tudo somado a uma edição que incita memórias. Ao longo do filme, a trilha nos conduz para o desconforto, o absurdo e a tensão em uma performance digna de Oscar do artista da banda Radiohead. Já a câmera é sempre precisa, variando de planos fechados que compõem a densidade dos personagens e planos abertos que mostram uma batalha após a outra.

PTA transforma um filme de ação em comentário político sem nunca abandonar o entretenimento. Ao trocar heróis tradicionais por figuras falhas e autoridades por caricaturas perigosas, ele faz do espetáculo um meio de incômodo. É um filme que diverte, mas deixa um gosto amargo — e talvez seja exatamente esse o ponto.

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