Há filmes que usam o horror para assustar. Pecadores, de Ryan Coogler, faz algo mais incômodo: usa o horror para lembrar. Lembrar que a história americana foi escrita à base de apagamentos, que a música negra nasceu do trauma e que, em certos contextos, sobreviver já é um tipo de pecado. Após anos orbitando grandes franquias, Coogler retorna ao território do cinema autoral com sua obra mais vibrante, ambiciosa e pessoal, um filme que não teme sujar as mãos ao transformar vampiros em alegoria social e o blues em linguagem espiritual.
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Ambientado no sul segregacionista dos Estados Unidos, no início do século XX, Pecadores constrói seu universo com paciência ritualística. Antes que qualquer criatura atravesse a noite, o diretor nos convida a observar a vida cotidiana de uma comunidade negra esmagada por estruturas invisíveis, porém onipresentes. O horror aqui não chega abruptamente; ele já está entranhado nas relações, nos olhares, nas escolhas possíveis, ou na ausência delas. Quando o sobrenatural finalmente se manifesta, ele não rompe a narrativa: apenas revela aquilo que sempre esteve ali.

No centro dessa espiral estão Smoke e Stack, irmãos gêmeos interpretados por Michael B. Jordan em um trabalho de precisão e vulnerabilidade raras. Vindos de Chicago, marcados pelo crime e pela violência urbana, eles retornam à cidade natal com uma promessa de reconstrução: abrir um clube de blues para a população negra local. Não se trata apenas de um negócio, mas de um território simbólico, um espaço onde corpos historicamente silenciados podem existir sem pedir permissão. Um templo profano onde a música substitui a oração.
Coogler compreende o blues não como pano de fundo, mas como força narrativa viva. Cada acorde carrega memória. Cada canção é um arquivo emocional de dor, desejo, resistência e prazer. O filme sugere que músicos são mais do que artistas: são mediadores entre mundos, condutores de algo ancestral que sobreviveu à escravidão, à segregação e à tentativa sistemática de apagamento cultural. O blues, em Pecadores, não nasce do diabo, nasce da ferida. E toda ferida aberta carrega o risco de contaminação.

É nesse terreno que o horror se infiltra. Vendido superficialmente como um filme de vampiros, Pecadores utiliza a criatura noturna como metáfora da apropriação, da exploração e da promessa corrupta de ascensão social. O vampiro não quer apenas sangue: quer pertencimento, quer tomar para si aquilo que não construiu. Ele é a imagem do colonizador cultural, do sistema que consome, dilui e depois vende de volta aquilo que roubou. Coogler não aponta o dedo, ele constrói a armadilha e deixa que o espectador perceba quando já é tarde demais.
A divisão entre os irmãos materializa esse conflito. Smoke, mais pragmático, enxerga na adaptação uma forma de sobrevivência. Stack, impulsivo e apaixonado, resiste à ideia de negociar a própria essência. Nenhum dos dois é herói, e essa é a maior honestidade do filme. Ambos são produtos de um país que empurra a população negra para escolhas extremas, oferecendo liberdade apenas como miragem. O pacto, aqui, não é sobrenatural, é estrutural.
Visualmente, Pecadores é um filme de atmosfera densa, quase febril. A fotografia transforma o sul dos Estados Unidos em um espaço mítico, onde o tempo parece dobrar sobre si mesmo. Há uma sensualidade latente em cada plano, uma tensão constante entre prazer e ameaça. A trilha sonora de Ludwig Göransson atua como espinha dorsal emocional da obra, conduzindo o espectador por estados de melancolia, êxtase e luto sem recorrer a sublinhados narrativos. A música não explica: ela atravessa.

Quando o filme se aproxima mais explicitamente das convenções do gênero, especialmente em seu terço final, há uma leve perda de potência simbólica. O confronto entre humanos e criaturas assume contornos mais tradicionais, quase seguros demais para um filme que até então caminhava na corda bamba da ambiguidade moral. Ainda assim, mesmo nesses momentos, Pecadores jamais abandona seu discurso central. O horror pode até vestir uma fantasia conhecida, mas o que ele diz continua profundamente político.
No fim, Pecadores não é um filme sobre monstros que se escondem na escuridão. É sobre sistemas que operam à luz do dia. Sobre como a arte nasce do sofrimento, mas também pode ser cooptada por ele. Sobre a ilusão de que é possível negociar com forças históricas sem pagar um preço irreversível. Ryan Coogler entrega uma obra que pulsa, sangra e canta, imperfeita em sua forma, mas devastadoramente honesta em seu conteúdo.
Um filme que entende que, na América, o verdadeiro pacto nunca foi com o diabo, foi com o esquecimento.
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MAS, E A NOTA?
Pecadores se afirma como o filme mais pessoal e politicamente carregado da carreira de Ryan Coogler. Sob a fachada de um conto gótico de vampiros, o diretor constrói uma alegoria sobre raça, cultura e sobrevivência, transformando o sul dos Estados Unidos em um território onde o horror não é exceção, mas consequência histórica. Aqui, o sobrenatural não invade a realidade: ele apenas dá forma ao que sempre esteve à espreita.
Narrativamente, o longa cresce ao priorizar a construção de personagens e de atmosfera antes de abraçar o terror propriamente dito. A jornada dos irmãos Smoke e Stack funciona como espelho de escolhas impostas a uma população encurralada entre assimilação e resistência. Em alguns momentos, porém, a transição para o horror mais explícito revela certo desequilíbrio, com convenções do gênero que simplificam conflitos até então complexos.

Tecnicamente, Pecadores é vibrante e seguro. A direção de Coogler exibe domínio absoluto do espaço, da música e do corpo em cena, enquanto a trilha sonora de Ludwig Göransson atua como força narrativa essencial. Michael B. Jordan entrega a performance mais madura de sua carreira, diferenciando os gêmeos não apenas por gestos, mas por visões de mundo opostas, enquanto o filme utiliza o blues como elo espiritual entre passado, presente e trauma coletivo.
Ao final, Pecadores não busca conforto nem consenso. É um filme sobre pactos, não apenas com monstros, mas com sistemas, e sobre o preço pago quando a fuga da opressão passa pela corrupção da própria identidade. Imperfeito em sua execução de gênero, mas poderoso em sua intenção, o longa confirma Coogler como um cineasta que entende o espetáculo como ferramenta política e emocional.
NOTA: 9,5/10 — Pecadores impressiona pela densidade temática, pela força simbólica do uso do blues e pela coragem de tratar o horror como herança histórica. Perde potência ao recorrer a soluções mais convencionais no clímax, mas permanece um filme inquietante, sensual e necessário. Um lembrete de que, muitas vezes, o verdadeiro demônio não oferece presas, oferece escolhas.
Ficha Técnica

- Título: Pecadores (Sinners).
- País: EUA.
- Estreia: 2025.
- Direção: Ryan Coogler.
- Roteiro: Ryan Coogler.
- Elenco: Michael B. Jordan I Jack O’Connell I Hailee Steinfeld I Miles Caton I Saul Williams I Andrene Ward-Hammond I Dave Maldonado I Sam Malone I Li Jun Li I Omar Benson Miller entre outros.
- Duração: 2h17min.
- Gênero: Drama de Época I Terror Sobrenatural I Horror.
- Classificação: 16 anos.









