|Indicados ao Oscar| Bugonia: Em um filme divertido, Yorgos Lanthimos se perde na própria estética 

Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan tenta achar o porquê das teorias da conspiração existirem. Entre as hipóteses, surgem: a busca de pertencimento em um grupo “superior”, que sabe algo que os outros não sabem; desconfiança em relação às autoridades; busca de explicações para aquilo que não compreendemos e a falta de pensamento cético. Teddy, protagonista de Bugonia, poderia ser a personificação das origens do conspiracionismo descritas por Sagan. Em vez disso, Lanthimos o transforma em um delírio ambulante, resultado de sua excentricidade narrativa e se perde na sua própria estética.

A premissa promete uma crítica feroz a alguma coisa que ele não define e aparece mansa no meio da estética absurdista de Yorgos. Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) são dois primos que acham estar vivendo em um mundo silenciosamente dominado por aliens que querem exterminar as abelhas, destruir comunidades e forçar o os humanos a uma existência entorpecida por meio das tecnologias e prazeres mundanos do século XXI. Para combater a invasão extraterrestre, a dupla sequestra Michelle Fuller (Emma Stone), CEO de uma grande empresa farmacêutica. 

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(Foto: Reprodução/Universal Pictures)

Em um primeiro ato o filme passa a impressão de falar sobre as grandes e malignas corporações que escravizam os humanos por meio do capitalismo. Já no segundo, o foco se vira para Teddy e como ele é um exemplo do risco do conspiracionismo e da crença de se achar superior por saber “a verdade”. Depois de uma hora e pouca de uma crítica interessante, mas confusa, e visuais bonitos, mas apelativos, o terceiro ato do filme é um tapa na cara do espectador. Yorgos encerra a trama sem dialogar com as ideias que o próprio filme sugere e ainda tira a força do que havia sido construído até então.

O filme tem muitos méritos. A atuação de Jesse Plemons é muito boa apesar do personagem dele ser mal explorado pelo filme. As motivações de Teddy e o nível de sua insanidade se escondem no filme, aparecendo em segundos de tela. Assim, ficamos com a impressão de um personagem complexo que foi diluído pela incerteza de Yorgos em fazer um filme caricato ou uma crítica que explora a degradação humana. Ao tentar conciliar as duas vertentes, Lanthimos as enfraquece e deixa a sensação de uma tese que nunca se consolida.

Se Michelle foi a escolhida por Teddy para pagar pela invasão alien na terra, Emma Stone é mais uma vez a escolhida de Yorgos para pagar o preço de entrega ao papel sensacional. Uma coisa é inegável: Yorgos sabe causar emoções pelo visual, e a Emma Stone careca há de ser a marca principal de Bugonia e o desconforto constante que esse filme procura causar. O espectador realmente duvida da identidade de Emma Stone, por mais absurdo que a teoria possa ser. Apesar do plot final ser fraco, Emma parecia estar de acordo com ele desde o início, acertando em cheio na sua performance.

A cinematografia do filme é muito bonita e clássica de Yorgos: planos nada convencionais mas que funcionam dentro daquele contexto. No entanto, o filme tenta provocar o desconforto constantemente e parece focar mais nisso do que em contar a história em si. Essa marca registrada do diretor não me incomodou nos primeiros atos do filme, é cativante e acrescenta algo à narrativa, mas o terceiro ato me parece ser feito exclusivamente para chocar, e faz isso de uma maneira que apela para recursos estéticos e acaba entregando um desfecho fraco. Para coroar esse desconforto, temos uma trilha sonora que encaixa bem no filme, apesar de ser exclusivamente uma constante sinfonia agoniante e tensa, com poucas exceções que fazem bem seu papel. 

No geral, o filme vale a pena na maior parte do tempo. Não é uma evolução de Yorgos Lanthimos nem nada inovador, apenas tem uma proposta interessante que se carrega bem até o final da obra. Minha ressalva é a reviravolta final que me gerou um completo desinteresse na mensagem do filme ou na credibilidade que ele tinha. Não há nada de errado em ser caricato, mas Yorgos se leva a sério demais e desvia a proposta do filme do que ele realmente entrega. Afinal, não vemos nenhuma mensagem bem acabada sobre como “eles” querem dominar o mundo ou sobre os perigos do conspiracionismo, apenas um estudo estético sobre o bizarro que se perde ao tentar demais. Se o conspiracionismo nasce do medo e da ignorância, como sugeria Sagan, Bugonia indica algo talvez mais incômodo: ele também pode nascer do fascínio pelo absurdo.

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