Sonhos de Trem é menos um filme e mais um organismo de tempo: respira décadas, pulsa estações e se alimenta de silêncios. Sob a direção de Clint Bentley, a adaptação da novela de Denis Johnson transforma a vida de Robert Grainier, vivida com contenção e gravidade por Joel Edgerton, em uma travessia onde o mundo exterior é apenas o eco ampliado de um mundo interior em lenta combustão.
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Ambientado nas florestas e nos vales do Noroeste dos Estados Unidos, com passagens por pequenas cidades de Idaho e trilhos que parecem costurar o mapa como cicatrizes, o longa constrói um épico microscópico. Não há heroísmo de superfície; há erosão. A narrativa observa a passagem do tempo como quem observa um rio: sem pressa, sem concessões, permitindo que a água revele as pedras que sempre estiveram ali.
O filme pensa em imagens, mas sente em paisagens. E é justamente aqui que a presença brasileira se torna decisiva. A direção de fotografia de Adolpho Veloso não apenas registra a natureza, ela a escuta. Sua câmera recusa o olhar dominador e prefere o olhar submisso ao horizonte, frequentemente posicionando o homem no terço inferior do quadro, como se a humanidade fosse uma nota de rodapé no grande livro geológico da Terra. Em seus enquadramentos, a luz não ilumina; ela recorda. O amanhecer não nasce, desvela. O crepúsculo não encerra, sedimenta.

Veloso opera como um cartógrafo do invisível. As árvores não são apenas árvores: são colunas de uma catedral sem altar. A neblina não oculta: protege o mistério do mundo contra a ansiedade humana por explicações. Em longos planos que privilegiam o tempo real da respiração e do vento, a fotografia sugere que o protagonista não atravessa a paisagem, é atravessado por ela. O Brasil está ali, não como geografia, mas como sensibilidade: uma forma de olhar que reconhece o sagrado no orgânico e o drama no ordinário.
No centro dessa arquitetura sensorial, Grainier surge como um homem em estado de testemunho. Edgerton constrói um personagem que parece esculpido pela própria duração: cada ruga é um arquivo, cada pausa é uma oração sem palavras. O encontro com Gladys, vivido por Felicity Jones, é um instante de primavera numa biografia de invernos longos; a amizade com Art Peeples, interpretado por William H. Macy, oferece a ternura possível entre ruínas. Nada é grandioso no sentido convencional, e justamente por isso tudo se torna grandioso.

Sonhos de Trem também é um retrato de um país que se constrói enquanto se desfaz. A expansão ferroviária, a industrialização voraz e a violência contra imigrantes atravessam o filme como correntes subterrâneas. O progresso aparece como um fogo que aquece e consome, iluminando a promessa de futuro ao mesmo tempo em que devora o passado. A modernidade, aqui, não chega, ela substitui.
A narração em off de Will Patton, cálida e grave, funciona como uma consciência que tenta dar forma ao indizível. Em alguns momentos, porém, a palavra antecede a experiência e explica o que a imagem já havia sussurrado. O paradoxo é inevitável: um filme que convida à contemplação por vezes teme o silêncio que a contemplação exige. Ainda assim, quando a voz se retira, o cinema respira com mais profundidade, e é nesse espaço que a fotografia de Veloso atinge sua potência máxima.
Há sequências em que o protagonista encara um avião cortando o céu como quem vê um presságio metálico; em outras, a floresta parece devolver olhares que não pertencem a ninguém. O filme flerta com o espiritual sem nunca nomeá-lo, sugerindo que o mistério não é um elemento da realidade, mas sua própria textura. A parceria criativa entre Bentley e Greg Kwedar, já sensível em Sing Sing, encontra aqui uma forma ainda mais rarefeita, quase mineral.

Não surpreende que o longa tenha ganhado fôlego em festivais como o Festival de Sundance e alcance público global pela Netflix. Mas sua vocação não é a de um evento; é a de uma presença. Alguns filmes se assistem. Este se habita.
Em síntese, Sonhos de Trem é um cinema de duração e de escuta. Um filme que compreende a vida como sucessão de instantes aparentemente pequenos que, vistos à distância, formam a cartografia inteira de uma existência. E no coração dessa experiência está o olhar brasileiro de Adolpho Veloso, que transforma a luz em memória e a paisagem em pensamento.
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MAS, E A NOTA?
Sonhos de Trem se apresenta como uma meditação sobre o tempo que não passa, ele se deposita. Sob a direção de Clint Bentley, o filme abandona a lógica do clímax e abraça a duração como linguagem. A narrativa não conduz: ela acompanha. Como um trem que avança sem pressa por vales silenciosos do Noroeste dos Estados Unidos, a história observa a vida de Robert Grainier não como uma sucessão de eventos, mas como um acúmulo de estações interiores. O drama não explode; ele sedimenta.
Narrativamente, a força do longa emerge quando compreende o protagonista como testemunha e território ao mesmo tempo. Na interpretação de Joel Edgerton, Grainier não reage ao mundo: ele o absorve. O amor por Gladys, a amizade que surge e se dispersa, o trabalho que molda o corpo e a memória, tudo se organiza como uma arqueologia do cotidiano, em que a grandeza nasce do ordinário. Adaptando a novela de Denis Johnson, o roteiro entende que a verdadeira epopeia não é a do herói que vence, mas a do homem que permanece.
Visualmente, o filme alcança sua dimensão mais rara. A fotografia de Adolpho Veloso funciona como um idioma próprio, no qual a luz é memória e a paisagem é consciência. As florestas de Idaho não servem de cenário: são um organismo que respira junto aos personagens. Veloso frequentemente rebaixa o homem no enquadramento, entregando o horizonte à natureza como quem devolve ao mundo sua primazia. Há uma espiritualidade sem dogma nos planos longos, uma sensação de que o tempo não corre, ele observa. A câmera não captura a vida: ela a escuta.

No campo temático, o filme reflete sobre um país que se constrói enquanto se desfaz. Trilhos costuram distâncias e, ao mesmo tempo, abrem feridas; o progresso surge como promessa e perda, como chama que ilumina e consome. O preconceito e a violência aparecem não como exceções, mas como ruído de fundo de uma modernidade que avança sem pedir licença. Ainda assim, a obra não acusa, ela lamenta.
Há, contudo, um ponto de fricção. A narração em off, por vezes, antecipa sentidos que a imagem já havia sugerido com delicadeza. Quando a palavra explica, a contemplação diminui; quando a palavra silencia, o cinema respira. Não é um desvio fatal, mas um limite perceptível em um projeto que encontra sua potência máxima justamente naquilo que não é dito.
Ao final, Sonhos de Trem se impõe como um cinema de permanência. Não busca impactar, mas permanecer dentro do espectador como um eco de paisagem, um rastro de luz sobre madeira úmida, um trem distante atravessando o crepúsculo. Imperfeito em seu apego ocasional à explicação, grandioso em sua confiança no olhar, o filme transforma a vida comum em experiência metafísica.
NOTA: 8/10 – Um poema visual sobre o tempo e a condição humana, elevado pela fotografia de Adolpho Veloso a um patamar de rara sensibilidade. Contemplativo sem ser vazio, íntimo sem ser pequeno, o filme comprova que o verdadeiro movimento não está no que acontece, mas no que permanece.

- Título: Sonhos de Trem
- País: EUA
- Estreia: 2025
- Direção: Clint Bentley
- Roteiro: Clint Bentley I Greg Kwedar l Denis Johnson
- Elenco: Joel Edgerton I Clifton Collins Jr. I Felicity Jones I Alfred Hsing I John Patrick I Chuck Tucker I Paul Schneider I William H. Macy I entre outros.
- Duração: 1h42min.
- Gênero: Drama de época I Drama psicológico I Drama.
- Classificação: 14 anos.









