“Indicados ao Oscar 2026” I ‘Frankenstein’ é sonho gótico imperfeito de Del Toro que encanta e inquieta

Exibido inicialmente no Festival Internacional de Cinema de Toronto e depois lançado nos cinemas brasileiros como um evento artístico de grande expectativa, Frankenstein não é apenas uma adaptação literária, é um gesto autoral de devoção. Guillermo del Toro não dirige o mito: ele o contempla como quem observa uma criatura adormecida, tentando decifrar o momento exato em que a vida se transforma em fardo. O filme nasce, portanto, menos como narrativa e mais como elegia. Uma obra que respira através de sombras, texturas e silêncios.

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Inspirado no romance de Mary Shelley, o longa trata a criação não como milagre científico, mas como um ato metafísico de violência contra a ordem natural. Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac, não parece um homem que cria vida, parece alguém que tenta convencer o universo a ceder espaço para sua própria solidão. Seus experimentos não carregam curiosidade científica; carregam desespero. O laboratório é filmado como um templo profanado, onde a eletricidade não ilumina, mas fere. Cada engrenagem soa como um coração artificial tentando aprender a pulsar.

Cena do filme 'Frankenstein (2025)' - Foto: Divulgação/Netflix
Cena do filme ‘Frankenstein (2025)’ – Foto: Divulgação/Netflix

Quando a Criatura emerge, vivida por Jacob Elordi, o filme abandona a lógica do horror físico e entra em território existencial. O monstro não nasce, ele é exposto ao mundo como uma pergunta que ninguém deseja responder. Sua presença carrega uma melancolia que ultrapassa o grotesco. Não é o corpo costurado que causa inquietação, mas a consciência recém-desperta que busca sentido em um universo indiferente. O olhar da Criatura não ameaça: implora. E nessa imploração silenciosa reside o verdadeiro terror do filme, o medo de existir sem propósito.

Cena do filme 'Frankenstein (2025)' - Foto: Divulgação/Netflix
Cena do filme ‘Frankenstein (2025)’ – Foto: Divulgação/Netflix

Del Toro constrói imagens como quem modela memória em pedra. Assim como em O Labirinto do Fauno e A Forma da Água, o diretor trata o fantástico como linguagem emocional. A luz não ilumina personagens, revela suas fissuras. O cenário não abriga a narrativa, absorve-a. A fotografia parece constantemente mergulhada em um crepúsculo permanente, como se o mundo retratado estivesse sempre entre o nascimento e a ruína. Há uma materialidade quase orgânica nos espaços: paredes parecem respirar, sombras parecem observar, e o silêncio possui densidade física.

Contudo, essa beleza escultórica carrega um preço narrativo. O filme contempla suas próprias imagens com tamanha reverência que o movimento dramático por vezes se dissolve como névoa ao amanhecer. A progressão da história não avança em linha reta, ela circula, retorna, hesita. A sensação é de observar um coração que bate forte, mas irregularmente. Há momentos em que o espectador não acompanha uma trama, mas atravessa um estado emocional prolongado.

Cena do filme 'Frankenstein (2025)' - Foto: Divulgação/Netflix
Cena do filme ‘Frankenstein (2025)’ – Foto: Divulgação/Netflix

Essa tensão entre contemplação e narrativa também se manifesta na estrutura temática. O longa oscila entre duas forças: a obsessão do criador e a consciência do criado. Quando o foco recai sobre Victor, a obra torna-se um estudo sobre arrogância humana. Quando se volta à Criatura, transforma-se em um poema sobre abandono. É nessa alternância que o filme encontra sua pulsação mais autêntica: a criação como espelho do criador, a monstruosidade como reflexo da fragilidade humana.

Há uma dimensão profundamente trágica na maneira como o filme entende a existência. Criar, aqui, não é dar vida, é transferir sofrimento. Victor não derrota a morte; ele a multiplica. A Criatura não deseja vingança; deseja pertencimento. O mundo que a recebe, porém, responde com rejeição. O horror deixa de ser evento e torna-se condição permanente.

Visualmente, o longa funciona como uma catedral gótica construída com luz e matéria orgânica. Cada enquadramento possui peso simbólico, cada silêncio parece carregado de memória ancestral. A trilha sonora não acompanha a narrativa, ela a envolve como neblina sonora, ampliando a sensação de inevitabilidade trágica. O filme não assusta pelo inesperado, mas pela certeza de que toda criação carrega o germe de sua própria ruína.

Cena do filme 'Frankenstein (2025)' - Foto: Divulgação/Netflix
Cena do filme ‘Frankenstein (2025)’ – Foto: Divulgação/Netflix

O resultado final é paradoxal e profundamente coerente com seu tema. Assim como a criatura que retrata, o filme é uma obra feita de partes magníficas que nem sempre formam um organismo plenamente harmonioso. Sua beleza é incontestável, sua ambição é palpável, mas sua energia dramática oscila como uma chama exposta ao vento. Ainda assim, há algo profundamente comovente em testemunhar uma obra que prefere contemplar o abismo a simplificá-lo.

No fim, o longa não pergunta quem é o monstro. Ele sugere que a monstruosidade nasce no espaço entre criação e responsabilidade. Frankenstein não é um filme sobre vida artificial, é um filme sobre o preço de existir quando se foi criado sem amor.

Veja trailer do filme

MAS, E A NOTA?

Frankenstein se apresenta como um ato de contemplação sombria sobre a criação, não apenas de um ser, mas de um vazio. Sob a direção de Guillermo del Toro, o filme abandona a lógica do susto e abraça a melancolia como motor dramático. A narrativa não corre: ela respira, observa, lamenta. É como se cada cena fosse esculpida em pedra fria, um monumento à obsessão humana por desafiar o limite entre matéria e espírito. Aqui, o horror não se impõe pela violência do desconhecido, mas pela familiaridade da solidão. O monstro não invade o mundo; ele nasce dele.

Narrativamente, o longa encontra sua força quando desloca o eixo da tragédia para o olhar da Criatura. Em vez de mero resultado de um experimento, ela surge como metáfora da própria consciência, um ser que aprende a existir antes mesmo de compreender por que existe. A jornada não é de vingança, mas de reconhecimento. Cada gesto, cada silêncio, cada tentativa de aproximação humana é como um eco que retorna vazio. O roteiro entende que a verdadeira monstruosidade não reside na deformidade física, mas na incapacidade de amar aquilo que criamos. Quando o filme se aproxima desse abismo filosófico, ele pulsa com intensidade rara; quando retorna à estrutura clássica do conflito entre criador e criação, revela suas limitações dramáticas.

Cena do filme 'Frankenstein (2025)' - Foto: Divulgação/Netflix
Cena do filme ‘Frankenstein (2025)’ – Foto: Divulgação/Netflix

Visualmente, a obra funciona como uma catedral gótica construída em movimento. A fotografia privilegia sombras densas, volumes orgânicos e composições que sugerem um mundo permanentemente em decomposição moral. A estética não serve apenas ao espetáculo: ela expressa a própria condição dos personagens. Os cenários parecem vivos, como se respirassem o mesmo desespero que habita a Criatura. Há uma materialidade quase tátil nas texturas, carne, metal, névoa, madeira úmida, que transforma o espaço em extensão psicológica do drama. Ainda assim, essa reverência estética cobra um preço: o filme frequentemente se encanta mais com sua própria beleza do que com a progressão narrativa, alongando momentos que pediriam maior urgência emocional.

No campo temático, a adaptação assume uma postura elegíaca. A história deixa de ser apenas uma advertência sobre os perigos da ciência e se transforma em reflexão sobre responsabilidade afetiva. Criar é assumir um vínculo que não pode ser negado. O filme insiste nessa ideia como quem repete um lamento: a verdadeira tragédia não é dar vida, mas abandoná-la. Nesse sentido, a obra dialoga menos com o terror clássico e mais com uma espécie de drama existencial fantasmagórico, onde o medo nasce do reconhecimento de nossas próprias falhas morais.

Ao final, Frankenstein emerge como uma obra que privilegia atmosfera sobre impacto, reflexão sobre tensão, contemplação sobre movimento. É um filme que não busca recontar um mito, mas meditá-lo. Imperfeito em seu ritmo e por vezes prisioneiro de sua própria solenidade estética, o longa ainda assim se impõe como experiência sensorial e emocionalmente ressonante, uma criação cinematográfica que, como sua própria Criatura, impressiona não por sua perfeição, mas por sua dolorosa humanidade.

NOTA: 7,5/10 – Uma adaptação visualmente hipnótica e filosoficamente densa, que emociona pela intenção e pela atmosfera, mesmo quando a narrativa se deixa consumir por sua própria contemplação.

  • Título: Frankenstein
  • País: EUA
  • Estreia: 2025
  • Direção: Guillermo del Toro
  • Roteiro: Guillermo del Toro I Mary Shelley
  • Elenco: Oscar Isaac I Jacob Elordi I Christoph Waltz I Mia Goth I Felix Kammerer I Charles Dance I David Bradley I Lars Mikkelsen I entre outros.
  • Duração: 2h29min.
  • Gênero: Drama I Fantasia I Horror.
  • Classificação: 18 anos.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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