“Indicados ao Oscar 2026” | ‘F1: O Filme’ mistura velocidade, ego e Brad Pitt… e funciona

Dirigido por Joseph Kosinski, F1: O Filme surge como uma extensão natural do cinema de ação moderno que o cineasta consolidou com Top Gun: Maverick. Aqui, o céu é substituído pelo asfalto, os caças dão lugar a monopostos e o cockpit vira o novo campo de batalha de um cinema que aposta menos em complexidade dramática e mais em imersão sensorial extrema. O resultado é um blockbuster que sabe exatamente o que quer ser, e não pede desculpas por isso.

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Há, essencialmente, três filmes coexistindo dentro de F1. O primeiro é a clássica narrativa de redenção hollywoodiana: Sonny Hayes (Brad Pitt), um ex-prodígio da Fórmula 1, afastado por décadas após um acidente, retorna desacreditado, envelhecido e carregando um passado mal resolvido. O segundo é uma espécie de reality show estilizado da Fórmula 1, interessado nos bastidores, nas estratégias, nos egos e na construção de imagem do esporte. Já o terceiro, e mais bem-sucedido, é o cinema de ação puro, que une esses dois elementos em uma experiência audiovisual que beira o hipnótico.

Cena do filme "F1 - O Filme" - Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Cena do filme “F1 – O Filme” – Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

É nesse último que F1: O Filme realmente encontra sua força. Kosinski domina a linguagem da velocidade como poucos diretores contemporâneos. A câmera não observa os carros: ela corre com eles. O espectador sente o peso das curvas, o tranco das trocas de marcha, o risco constante de um erro fatal. Filmado em locações reais, como Silverstone, Las Vegas, Abu Dhabi e Daytona, durante fins de semana oficiais da Fórmula 1, o longa utiliza carros adaptados da Fórmula 2, múltiplas câmeras por veículo e até smartphones acoplados aos chassis para criar uma sensação de realidade quase documental.

O trabalho de som é simplesmente arrebatador. Em salas IMAX, o filme se transforma em uma experiência física: o ronco dos motores vibra no peito, o silêncio antes da largada é quase sufocante, e cada ultrapassagem parece arrancar o fôlego. A trilha sonora de Hans Zimmer, combinando temas grandiosos com batidas contemporâneas, reforça essa sensação de urgência constante, especialmente na primeira meia hora do filme, um verdadeiro espetáculo de introdução que faz o público esquecer, momentaneamente, que há uma história sendo contada.

Quando o pé sai do acelerador, no entanto, surgem os limites do projeto. O roteiro, também assinado por Kosinski, não esconde seu apego aos clichês. Sonny Hayes é o arquétipo do herói individualista: talentoso, carismático, resistente ao trabalho em equipe, mas inevitavelmente admirado por todos. Sua relação com o jovem piloto Joshua Pearce (Damson Idris) segue a cartilha da tensão geracional, enquanto o romance com a engenheira Kate McKenna (Kerry Condon) carece de densidade emocional. Os conflitos existem, mas são resolvidos com rapidez excessiva, como se o filme tivesse medo de desacelerar demais.

Damson Idris e Brad Pitt no GP da Inglaterra de 2023; atores vão interpretar pilotos de F1 em filme - Foto: Dan Mullan/Getty Images
Damson Idris e Brad Pitt no GP da Inglaterra de 2023; atores vão interpretar pilotos de F1 em filme – Foto: Dan Mullan/Getty Images

Ainda assim, o carisma do elenco sustenta o conjunto. Brad Pitt entrega exatamente o que se espera dele: presença magnética, segurança cênica e um herói que parece moldado sob medida para esse tipo de produção. Damson Idris injeta energia e frescor ao novato arrogante, enquanto Javier Bardem, como o chefe da equipe APX GP, funciona como elo emocional e catalisador da jornada de redenção. Nada disso é inovador, mas tudo é funcional.

É impossível ignorar também o caráter celebratório e mercadológico do filme. F1: O Filme não critica a Fórmula 1, ele a exalta. A FIA, as equipes e o próprio esporte são retratados como um espetáculo quase impecável, sem grandes fissuras morais ou políticas. Trata-se de uma vitrine cuidadosamente polida, alinhada ao crescimento do interesse norte-americano pela modalidade, impulsionado por séries, novos Grandes Prêmios e a iminente entrada de uma equipe dos EUA no grid. Falta risco narrativo, falta sujeira, falta conflito institucional real. Mas há honestidade: o filme nunca finge ser outra coisa além de um grande entretenimento.

No fim, F1: O Filme é menos sobre personagens e mais sobre sensações. É um longa que entende o cinema como evento coletivo, como experiência que só faz sentido em tela grande, com som alto e plateia envolvida. Sua história é previsível, seus dilemas são simplificados, mas sua execução técnica é tão impressionante que eclipsa boa parte de suas fragilidades.

Cena do filme "F1 - O Filme" - Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Cena do filme “F1 – O Filme” – Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Em última instância, Kosinski entrega um blockbuster que olha para o passado do cinema americano com nostalgia assumida, mas utiliza as ferramentas mais avançadas do presente para contar essa história. Não é uma obra profunda, nem revolucionária, mas é um espetáculo de ação exemplar, feito para ser sentido antes de ser analisado.

Poucos filmes recentes justificam tanto o ingresso quanto F1: O Filme. E, assim como Sonny Hayes prefere as palavras diretas, o veredito também pode ser simples: é cinema em alta velocidade, e vale cada segundo da corrida.

Veja trailer do filme

MAS, E A NOTA?

F1: O Filme se afirma como o projeto mais sensorial e tecnicamente ambicioso da carreira de Joseph Kosinski. Sob a fachada de um drama esportivo clássico, o diretor constrói uma celebração do movimento, da velocidade e da obsessão humana por ultrapassar limites, transformando a Fórmula 1 não apenas em pano de fundo, mas em linguagem cinematográfica. Aqui, a ação não serve à narrativa: ela é a narrativa.

Narrativamente, o longa cresce quando entende que sua força não está na originalidade do roteiro, mas na forma como encena arquétipos conhecidos. A jornada de Sonny Hayes funciona como uma releitura consciente do herói americano em fim de linha, um homem moldado pela glória passada, incapaz de existir fora da pista. Sua relação com o jovem Joshua Pearce espelha conflitos geracionais e de ego que fazem sentido dentro do esporte, ainda que o texto raramente se permita aprofundar essas tensões. Quando o filme tenta desacelerar para discutir trauma, afeto ou amadurecimento, revela seus limites, optando quase sempre por soluções confortáveis e previsíveis.

Cena do filme "F1 - O Filme" - Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures
Cena do filme “F1 – O Filme” – Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Tecnicamente, F1 é irretocável. A direção de Kosinski demonstra domínio absoluto do espaço físico, da geografia das pistas e da relação entre corpo, máquina e velocidade. A câmera não observa: ela participa. O desenho de som é um dos mais impressionantes do cinema recente, transformando cada troca de marcha em impacto emocional, enquanto a trilha de Hans Zimmer atua como combustível narrativo, amplificando a adrenalina e a grandiosidade da experiência. Brad Pitt entrega uma performance segura e carismática, talvez sem grandes riscos dramáticos, mas perfeitamente alinhada à proposta do filme: um herói que se sustenta mais pelo mito do que pela introspecção.

Ao final, F1: O Filme não busca reinventar o gênero esportivo nem questionar profundamente a instituição que retrata. É um filme sobre controle, precisão e espetáculo, que prefere a linha ideal à curva imprevisível. Imperfeito em sua construção dramática, mas avassalador em sua execução técnica, o longa confirma Kosinski como um cineasta que entende o cinema de ação como experiência física e coletiva.

NOTA: 7,5/10F1: O Filme impressiona pela imersão absoluta, pelo uso magistral do som e pela sensação visceral de velocidade. Perde força ao apostar em um roteiro excessivamente seguro e em conflitos pouco aprofundados, mas compensa com um espetáculo audiovisual que reafirma o cinema como evento. Um filme que talvez não fique na memória pelo que conta, mas certamente pelo que faz o público sentir.

Ficha Técnica

  • Título: F1
  • País: EUA.
  • Estreia: 2025.
  • Direção: Joseph Kosinski
  • Roteiro: Joseph Kosinski e Ehren Kuger
  • Elenco: Brad Pitt I Damson Idris I Javier Bardem I Kerry Condon I Tobias Menzies I Kim Bodnia I Ramona Von Pusch I Simon Kunz I entre outros.
  • Duração: 2h35min.
  • Gênero: Ação I Motorsport I Drama.
  • Classificação: 12 anos.

Autor

  • Nicolas Pedrosa

    Jornalista formado pela UNIP, com experiência em TV, rádio, podcasts e assessoria de imprensa, especialmente na área da saúde. Atuou na Prefeitura de São Vicente durante a pandemia e atualmente gerencia a comunicação da Caixa de Saúde e Pecúlio de São Vicente. Apaixonado por leitura e escrita, desenvolvo livros que abordam temas sociais e histórias de superação, unindo técnica e sensibilidade narrativa.

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