No dia 31 de março de 1964, o Brasil assistiu ao início de uma ditadura que mergulharia o país em 21 anos de censura, perseguições, torturas e desaparecimentos forçados. Passados 62 anos do golpe militar, o que deveria ser apenas um capítulo encerrado da história ainda reverbera como um problema não resolvido político, social e institucional.
Enquanto familiares de vítimas, pesquisadores e movimentos de direitos humanos insistem na necessidade de lembrar para não repetir, setores da sociedade ainda relativizam ou negam as violações cometidas pelo Estado.
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Essa tensão revela uma ferida aberta: o país nunca realizou plenamente um processo de justiça de transição. Diferente de outras nações da América Latina, o Brasil optou por um caminho conciliatório.
A Lei da Anistia, sancionada ainda sob a ditadura, perdoou tanto perseguidos políticos quanto agentes do Estado responsáveis por crimes como tortura e assassinato. Décadas depois, essa decisão segue sendo um dos principais entraves para a responsabilização judicial.

Caminhada do Silêncio 2026 – foto: Jackeline Macedo
A criação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012, representou um avanço importante ao reconhecer oficialmente as violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988.
O relatório final, divulgado em 2014, identificou centenas de mortos e desaparecidos políticos e apontou a responsabilidade de agentes públicos. No entanto, suas recomendações incluindo a revisão da Lei da Anistia não foram efetivamente implementadas.
Para muitas famílias, o tempo não trouxe respostas. O paradeiro de corpos ainda é desconhecido, e o luto permanece suspenso. A ausência de justiça transforma a memória em um campo de resistência. Esse passado não resolvido também ajuda a explicar o presente.
A permanência de práticas autoritárias nas instituições, especialmente nas áreas de segurança pública, e a naturalização da violência estatal são frequentemente apontadas por especialistas como heranças diretas do período da ditadura. Além disso, o crescimento de discursos que defendem intervenções militares ou minimizam a repressão indica que a memória histórica não foi plenamente consolidada na sociedade brasileira.
Mais do que recordar datas, a luta por memória, verdade e justiça é, hoje, uma defesa ativa da democracia. Ela questiona o silêncio, confronta o esquecimento e reivindica responsabilidade. Em um país onde o passado ainda ecoa nas estruturas do poder, lembrar não é apenas um gesto de homenagem é um ato político de continuar o legado daqueles que morreram na luta por um Brasil mais justo.









