Sob o sol escaldante que castiga corpos e fantasias ou sob chuvas torrenciais que interrompem ensaios inteiros, o Carnaval de 2026 chega como um teste definitivo para a maior festa popular do país. No Rio de Janeiro e em São Paulo, onde a Sapucaí e o Anhembi concentram milhões de espectadores e bilhões em investimentos culturais, eventos climáticos extremos já deixaram de ser exceção para se tornar uma ameaça constante ao ritmo da folia.
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Não é futuro, é agora
A crise climática, que vem redesenhando calendários ao redor do mundo, também alcançou grandes eventos globais. Em 2023, o Grande Prêmio da Emília-Romanha, da Fórmula 1, foi cancelado após enchentes históricas no norte da Itália, enquanto o US Open enfrentou interrupções causadas por tempestades em Nova York. Em 2024, os Jogos Olímpicos de Paris e o festival Tomorrowland precisaram alterar suas programações diante de ondas de calor, chuvas intensas e riscos à segurança do público.
O alerta ganhou contornos ainda mais graves em 2025, oficialmente um dos anos mais quentes da história moderna, com temperaturas próximas de 48 °C registradas em regiões da Índia e do Paquistão.
O impacto direto no Carnaval brasileiro
No Brasil, os efeitos já são concretos. Apenas em 2024, enchentes no Rio de Janeiro forçaram o cancelamento de 28 ensaios da Série Ouro, um sinal claro de que o samba também sente – e sofre – as consequências das mudanças climáticas. Diante desse cenário, o Carnaval de 2026 deixou de ser apenas uma festa e passou a ocupar um espaço cada vez mais político.
Samba sustentável: políticas e ações pioneiras
Algumas escolas de samba vêm avançando em ações concretas para mitigar emissões e reduzir resíduos, transformando a crise em oportunidade de inovação. A Portela, em 2025, tornou-se a primeira escola a descarbonizar seu desfile na Sapucaí por meio de uma parceria com a TYR Energia, compensando suas emissões com créditos certificados e migrando sua quadra para o uso de energia 100% renovável.

(Portela /Divulgação)
A Liga RJ também criou uma diretoria de sustentabilidade na Série Ouro, promovendo iniciativas como compensação de carbono, reciclagem de fantasias e gestão de resíduos em ensaios e apresentações. A expectativa é que essas ações contribuam para atrair investimentos alinhados a práticas ambientais responsáveis.
Produção no limite e custos crescentes
Embora o impacto seja grande na produção artística, a logística do Carnaval também é profundamente afetada. Com chuvas intensas cancelando ensaios e elevando custos – sobretudo para escolas sem grandes patrocinadores -, a festa mais famosa do país passa a operar no limite entre a tradição e a sobrevivência.
Em 2024 e 2025, a Liga registrou perdas financeiras significativas provocadas por eventos climáticos extremos, como gastos com carros de som e equipes de segurança em ensaios cancelados. O cenário pressiona especialmente as escolas cariocas que disputam vagas no Grupo Especial para 2026.
Em São Paulo, blocos de rua passaram a cobrar da prefeitura infraestrutura climática, incluindo protocolos para adiamento de desfiles em situações de calamidade e melhorias na gestão de resíduos, após episódios recentes de extremos climáticos que afetaram a folia.
É possível se prevenir da imprevisibilidade do clima?
Projetos como Sustenta Carnaval e Carnicycle afirmam que sim. As iniciativas apostam no reaproveitamento de fantasias e resíduos, conectando o samba a práticas ecológicas. Em São Paulo, ações como o Bloco do Pedal geram energia a partir das pedaladas dos foliões, enquanto estudos apontam a viabilidade de sistemas de reciclagem em escala nacional, abrindo espaço para a entrada de marcas comprometidas com a sustentabilidade.
Para 2026, essas ações podem se expandir, com escolas da elite carioca planejando novas parcerias para reduzir o impacto ambiental de carros alegóricos e do uso de plásticos descartáveis.
Marcos Campos, do bloco Eco Campos Pholia, defende o planejamento preventivo: “A festa pode e deve ser sustentável, com campanhas educativas e infraestrutura climática adequada”. Já Rômulo Vieira, gerente de Inteligência e Estratégia de Marca, reforça:
“É viável equilibrar diversão e responsabilidade por meio da inovação ecológica”.
Em contrapartida, a Liga RJ, que busca ampliar sua credibilidade para captar recursos sustentáveis, afirma que ainda não estabelece uma relação direta entre eventos climáticos e o Carnaval, embora reconheça que os cancelamentos têm custo elevado.
Rumo ao Carnaval mais ecológico da história?
Com menos de 30 dias para os desfiles, os ensaios já movimentam as ruas do Rio de Janeiro, e as apresentações marcadas para meados de fevereiro aumentam a pressão por adaptações urgentes. Escolas como o Salgueiro, que encerra o desfile do Grupo Especial na terça-feira (17/02), podem liderar essa transição ao ampliar parcerias sustentáveis, a exemplo do caminho iniciado pela Portela.
O Carnaval de 2026 já não é apenas festa. É uma oportunidade para o samba se tornar símbolo de resiliência climática, provando que a Sapucaí (e o Anhembi) podem brilhar sem queimar o planeta. Afinal, ninguém quer um Carnaval marcado apenas por samba, calor e chuva. Com consciência agora, o público e o futuro agradecem.









