Quem nunca sonhou em ir ao show do artista internacional ou nacional favorito? A divulgação da agenda, o alarme programado no celular, o cartão separado e a expectativa de garantir um bom lugar fazem parte do ritual de milhões de fãs. A confiança, no entanto, costuma durar pouco. Mesmo estando entre os primeiros da fila virtual, muitos consumidores se deparam com a mensagem de ingressos esgotados poucos segundos após a abertura das vendas. Diante desse cenário, a frustração é inevitável, e a desconfiança também.
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Essa sensação, cada vez mais comum no Brasil, tem nome conhecido: cambismo digital. Antes restrita às filas físicas em frente às bilheterias, a prática migrou para o ambiente online e ganhou contornos mais sofisticados, impulsionada por falhas tecnológicas, compras automatizadas e um mercado paralelo altamente lucrativo. O fenômeno passou a colocar em xeque a transparência das plataformas de venda e a efetiva proteção do consumidor.
A venda online de ingressos surgiu com a promessa de facilitar o acesso e reduzir desigualdades. Na prática, porém, o que se observa é um sistema frequentemente incapaz de garantir condições justas de concorrência entre consumidores comuns e esquemas organizados de revenda.
Relatos seguem um padrão recorrente: filas virtuais intermináveis, indisponibilidade instantânea de entradas e, poucos minutos depois, os mesmos ingressos reaparecendo em sites de revenda por preços até dez vezes superiores ao valor original. O cambismo, antes visível nas ruas, agora opera em escala digital, com alto grau de organização e rapidez.
O debate voltou ao centro das atenções após a pré-venda de ingressos para o show do cantor britânico Harry Styles, marcado para julho no Estádio MorumBIS, em São Paulo. Fãs relataram que as entradas se esgotaram rapidamente tanto no ambiente virtual quanto na bilheteria física, levantando suspeitas de atuação de cambistas.
Imagens e vídeos compartilhados nas redes sociais mostrariam pessoas portando grandes quantidades de ingressos físicos, o que reforçou a percepção de uma possível falha sistêmica no controle da comercialização.
Diante da repercussão, parlamentares passaram a pressionar órgãos de fiscalização. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Procon, solicitando apuração sobre o esgotamento considerado irregular e possíveis indícios de favorecimento a cambistas. Ela ainda afirmou que ficará atenta nos próximos dias de venda e que permanecerá em contato com os principais fã-clubes do artista no Brasil.

Segundo a deputada, não é plausível que eventos de grande porte tenham seus ingressos consumidos em minutos sem explicações técnicas claras, especialmente quando há registros quase imediatos de revenda por valores inflacionados.
“Nos EUA, de acordo com a acusação dos órgãos reguladores, parte considerável dos ingressos de eventos da TicketMaster era direcionada aos cambistas.”, comentou. Ela ainda completou. “Com isso, a empresa conseguia criar uma escassez artificial, vender apenas uma parcela dos ingressos com o preço oficial e direcionar o resto aos cambistas, que inflavam os preços e repassavam uma COMISSÃO para a TicketMaster”, disse Érika.
O deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP) também anunciou que levaria o caso ao Ministério Público e à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Para ele, o cambismo digital já configura uma indústria estruturada, que opera explorando brechas legais e tecnológicas.
O deputado ainda afirmou que, desde 2023, segue denunciando a “máfia dos ingressos” que existe no Brasil. E que a luta segue desde então para evitar que situações assim ocorram.
Em outro post, Cortez afirma que estão “burlando o direito a meia-entrada” cobrando taxas abusivas, quase às equiparando com o valor da inteira. Veja:
E agora?
Especialistas em segurança digital apontam que softwares automatizados, conhecidos como bots, são peças centrais nesse esquema. Capazes de realizar múltiplas compras simultâneas, esses programas burlam filas virtuais e garantem grandes volumes de ingressos em segundos.
Embora as empresas responsáveis pela venda afirmem utilizar mecanismos de proteção, como limites por CPF e validação de identidade, as denúncias indicam que essas barreiras são frequentemente insuficientes ou mal aplicadas. A ausência de transparência sobre a quantidade real de ingressos disponibilizados ao público agrava o problema.
A discussão se estende também a eventos esportivos. A venda de ingressos para o GP de São Paulo de Fórmula 1, em Interlagos, reacendeu críticas sobre a responsabilidade das empresas envolvidas, especialmente por se tratar de um evento que recebe financiamento público.
Erika Hilton destacou que o esgotamento quase instantâneo das entradas contrasta com a capacidade do evento, que reúne centenas de milhares de pessoas. A parlamentar questionou se todos os ingressos foram efetivamente colocados à venda e se parte deles teria sido reservada para revenda posterior a preços mais altos.
A deputada ainda reforçou que:
“Além disso, só entre 2022 e 2025, o setor de eventos recebeu cerca de R$ 60 bilhões de dinheiro público apenas com o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos, o Perse, isso sem contar eventuais outros benefícios. E o GP de São Paulo ocorre em Interlagos pois a prefeitura de São Paulo paga por isso. São cerca de 132 milhões de reais por ano pagos à Fórmula 1, além do investimento de R$ 500 milhões feito pela prefeitura para requalificar o Autódromo de Interlagos. Isso tudo é dinheiro público. Um setor que recebe tanto apoio do governo e da sociedade precisa se guiar pelas melhores práticas comerciais possíveis”, concluiu.
Para o público, o impacto vai além do bolso. A repetição desse cenário gera sentimento de exclusão, desconfiança e desgaste emocional, especialmente entre jovens e famílias que planejam com antecedência a participação em eventos culturais.
Campanhas virtuais e hashtags de protesto se multiplicam, pressionando empresas e autoridades por mudanças estruturais. Órgãos de defesa do consumidor alertam que a revenda com preços abusivos pode configurar prática ilegal, sobretudo quando associada a falhas no sistema original de venda.
Enquanto investigações avançam, o cambismo digital segue como um dos maiores desafios do mercado de entretenimento no Brasil. Especialistas defendem maior integração entre plataformas, fiscalização rigorosa, punições mais severas e transparência total sobre os processos de venda.
Até que essas medidas sejam efetivamente implementadas, o consumidor permanece como o elo mais vulnerável da cadeia, disputando ingressos não apenas com outros fãs, mas com sistemas automatizados e um mercado paralelo cada vez mais estruturado no ambiente digital.
O posicionamento das plataformas oficiais de venda
Diante das críticas recorrentes, as principais empresas de venda de ingressos online (como Ticketmaster, Eventim e Ingresso.com) afirmam adotar uma postura pública de combate ao cambismo digital, que classificam como uma “ameaça direta à experiência do consumidor e à integridade dos eventos culturais e esportivos”.
Em comunicados institucionais e posicionamentos anteriores, as plataformas sustentam que grupos organizados de cambistas utilizam tecnologias sofisticadas, como robôs automatizados (bots), para burlar filas virtuais e adquirir grandes volumes de ingressos em poucos segundos, dificultando o acesso de fãs que tentam comprar de forma regular.
Segundo as empresas, o combate a esse tipo de prática envolve investimentos contínuos em tecnologia e medidas de controle, ainda que os resultados nem sempre sejam suficientes para conter esquemas mais complexos.
Entre as principais ações anunciadas pelas plataformas estão ferramentas de identificação e bloqueio de bots, além da implementação de filas virtuais para organizar o tráfego nos momentos de maior demanda. Outra estratégia recorrente é a limitação da compra por CPF, associada a sistemas de login obrigatório, com o objetivo de dificultar aquisições em larga escala.
As empresas também afirmam proibir expressamente a revenda não autorizada, sobretudo quando os ingressos são ofertados por valores superiores ao original. De acordo com o discurso oficial, não há parcerias com plataformas de revenda que favoreçam cambistas, e qualquer prática nesse sentido violaria os termos de uso dos serviços.
Em situações consideradas extremas, há relatos de adoção de medidas judiciais contra grupos organizados, acusados de utilizar programas automatizados capazes de comprar centenas de milhares de ingressos de forma fraudulenta.
Outro ponto frequentemente destacado pelas empresas é o apoio à chamada “Lei Taylor Swift” (Lei nº 3.120/23), que passou a enquadrar o cambismo digital como crime contra a economia popular, com penas previstas de 1 a 2 anos de reclusão, além de multa.
As plataformas defendem que a criminalização fortalece o combate jurídico ao problema, ao permitir sanções mais severas contra esquemas de revenda irregular e uso de tecnologias automatizadas para fraude.
Limites e dificuldades reconhecidas
Apesar das iniciativas, as próprias empresas admitem enfrentar dificuldades técnicas significativas. Há registros, segundo relatos do setor, de que bots conseguem adquirir mais de 60% dos ingressos em eventos de altíssima demanda, mesmo com sistemas de proteção ativos.
As plataformas argumentam que, embora sejam responsáveis pela venda oficial, a atuação dos cambistas ocorre como uma fraude externa, que burla barreiras digitais em constante atualização. Para elas, o problema exige ação conjunta entre empresas, órgãos de fiscalização, Judiciário e poder público.
Em linhas gerais, as empresas se colocam como aliadas dos fãs, afirmando investir tanto no combate técnico quanto no enfrentamento legal do cambismo digital, ao mesmo tempo em que buscam aprimorar mecanismos como login único, verificação de identidade e filas virtuais mais rígidas, ainda que o desafio permaneça longe de uma solução definitiva.









