A rotina de mães solo que criam filhos com deficiência em favelas brasileiras é marcada por sobrecarga extrema, abandono paterno e desgaste emocional contínuo. Em comunidades como Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, a maternidade atípica se soma à vulnerabilidade social, criando um cenário em que cuidar também significa sobreviver.
Para muitas dessas mulheres, o momento do diagnóstico de um transtorno do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), representa uma ruptura profunda. Não apenas pela necessidade de reorganizar a vida em torno de terapias e cuidados permanentes, mas também pelo afastamento do parceiro, realidade comum nesse contexto. Levantamentos indicam que mais de 80% das mulheres com filhos autistas exercem a maternidade de forma solo, número ainda mais expressivo em territórios periféricos.
A sobrecarga não é apenas prática, mas emocional. “Essas mulheres passam a assumir todos os papéis ao mesmo tempo: cuidadora, provedora, mediadora de tratamentos e suporte emocional dos filhos”, explica Natália Lopes, fundadora do projeto Voz das Mães, que acompanha mães atípicas em diferentes regiões do país. Segundo ela, a solidão costuma ser uma constante. “O abandono não é só financeiro. É afetivo, social e estrutural”.
Em Paraisópolis, tarefas que já seriam complexas tornam-se ainda mais difíceis. A falta de serviços especializados próximos, a escassez de profissionais capacitados, problemas de mobilidade e transporte e a dificuldade de acesso ao sistema público de saúde ampliam a sensação de exaustão. Quando o atendimento pelo SUS não dá conta da demanda, muitas famílias recorrem à rede privada, com custos mensais que podem variar de R$ 500 a R$ 3.000, valores incompatíveis com a realidade da maioria das mães solo da favela.
Esse acúmulo constante de responsabilidades cobra um preço alto. Casos de ansiedade, depressão e burnout materno são frequentes. “Não é só cuidar de uma criança com deficiência. É lidar com uma rotina sem pausas, sem rede de apoio e sem espaço para adoecer”, relata Natália. Para muitas mães, o cansaço deixa de ser pontual e se transforma em um estado permanente.
A dificuldade de conciliar trabalho e cuidado também empurra essas mulheres para escolhas duras. A ausência de empregos flexíveis, aliada ao custo das terapias e à instabilidade financeira, faz com que muitas abandonem o mercado de trabalho ou aceitem ocupações precárias, aprofundando o ciclo de vulnerabilidade.
Apesar disso, essas mães seguem resistindo. Redes informais de apoio, grupos comunitários e espaços de escuta surgem como alternativas para reduzir o isolamento e compartilhar experiências. Mais do que assistência, elas buscam reconhecimento, empatia e políticas públicas que considerem a realidade de quem cuida sozinho.
“Falar sobre essa realidade não é vitimizar, é tornar visível. Essas mães não precisam de julgamento. Precisam de suporte, acesso e de um olhar mais humano da sociedade”, afirma Natália.









