O narcisismo familiar pode deixar marcas profundas e duradouras na forma como uma pessoa se percebe e se relaciona ao longo da vida. Presente em dinâmicas marcadas por desequilíbrio emocional, busca constante por validação e falta de empatia, esse padrão de convivência costuma ser naturalizado dentro do núcleo familiar e, por isso, muitas vezes passa despercebido, apesar dos impactos significativos na saúde mental.
Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan, o narcisismo no ambiente familiar vai além de comportamentos individualistas evidentes.
“Em famílias com traços narcisistas, a necessidade de atenção e reconhecimento se torna a regra da convivência. Não é apenas um traço isolado de alguém, mas um padrão que orienta expectativas, vínculos e papéis entre pais, filhos e irmãos”, explica.
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Esse tipo de dinâmica costuma envolver dificuldade de reconhecer os sentimentos do outro, baixa empatia e relações baseadas em hierarquia emocional. Em muitos casos, o afeto passa a ser condicionado ao atendimento das expectativas alheias. “O problema surge quando essas relações se estruturam em torno de quem pode ceder mais, quem deve silenciar necessidades próprias ou quem carrega a culpa para manter a aparência de harmonia”, afirma a especialista.
Além de atitudes explícitas, o narcisismo familiar pode se manifestar de forma mais sutil, por meio de manipulação emocional, como o gaslighting (quando alguém é levado a duvidar da própria percepção), alternância entre idealização e desvalorização e exigências constantes de aprovação. “Não estamos falando apenas de transtornos graves de personalidade. Muitas famílias apresentam traços narcisistas que, ao longo do tempo, geram desgaste emocional intenso”, ressalta Thaís.
A convivência prolongada com esse tipo de ambiente pode comprometer a autoestima, a autonomia emocional e a capacidade de estabelecer limites, especialmente em filhos. De acordo com a psicóloga, é comum que adultos criados nessas dinâmicas apresentem culpa excessiva, medo constante de desapontar e dificuldade de afirmar desejos próprios. “Isso acontece porque, em algum momento da infância ou adolescência, suas necessidades foram sistematicamente ignoradas ou invalidadas”, explica.
Para a especialista, reconhecer esses padrões é um passo essencial para romper ciclos de sofrimento emocional. “Desmistificar o narcisismo familiar e falar sobre limites saudáveis ajuda as pessoas a compreenderem que nem todo conflito é exagero ou fraqueza. Muitas vezes, é uma resposta legítima a anos de invalidação emocional”, afirma.
A busca por apoio psicológico e a construção consciente de novos modelos de relação são apontadas como caminhos possíveis para ressignificar essas experiências.
“Entender como a família influencia nossa vida emocional permite desenvolver vínculos mais equilibrados, baseados em respeito, empatia e autenticidade”, conclui Thaís Barbisan.









