Violência contra a mulher: dá para prevenir?

Pare agora e digite as palavras “mulher” e “violência” no Google. Note há quanto tempo saiu a última notícia. No meu caso, foi há uma hora.

Segundo os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra, em média, cerca de quatro feminicídios por dia. A coluna desta semana seria sobre a pandemia de violência contra a mulher. Mas, ao observar as manchetes, percebi algo inquietante: quase todas as notícias vêm depois do crime. E será que existe alguma forma de agir antes?

DADOS ASSUSTADORES

Em um recorte recente divulgado pelo mesmo Fórum, milhões de mulheres relataram ter sofrido algum tipo de violência no período analisado. Entre maio e julho de um dos levantamentos mais recentes, 3,7 milhões de brasileiras afirmaram ter vivido violência doméstica ou familiar em apenas três meses.

Pensando na minha saúde mental, reduzi o uso do X (antigo Twitter). No último fim de semana, entrei na rede depois de um tempo e, em menos de dez minutos, vi três vídeos de mulheres sendo agredidas. Trago dois exemplos que circularam amplamente.

1 – Em rede nacional

Nas quartas de final do Campeonato Paulista, no sábado (21), o Red Bull Bragantino enfrentou o São Paulo com a árbitra Daiane Muniz apitando a partida. Na entrevista pós-jogo, o zagueiro Gustavo Marques declarou:

“Não adianta colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. A Federação Paulista tem que olhar para um jogo desse tamanho e não colocar uma mulher.”

O mesmo atleta havia recebido uma das melhores notas de desempenho da partida. Pouco depois, pediu desculpas à imprensa.

O episódio escancara como o machismo ainda encontra microfone aberto em plena transmissão nacional.

2 – “Isso só acontece no Brasil?”

(AVISO: imagens de agressão)

Em Lisboa, capital de Portugal, um vídeo mostrou um homem agredindo violentamente uma mulher caída no chão, inclusive com chutes na cabeça.

A violência não tem CEP. Ela atravessa fronteiras, culturas e idiomas. E, diante disso, a pergunta volta: podemos fazer alguma coisa?

MEDIDAS PROTETIVAS DE VERDADE

Confesso que, diante de tudo isso, meu primeiro pensamento foi: como viver em um mundo assim? Entre a apatia e o medo, resolvi pesquisar aulas de defesa pessoal para mulheres perto de mim. Em um bairro a poucos quilômetros da Avenida Paulista, não encontrei turmas exclusivamente femininas. Enviei mensagem para oito academias; apenas uma oferecia aula para mulheres, ainda assim em espaço misto.

A sensação de vulnerabilidade é real. E, embora a responsabilidade pela violência nunca seja da vítima, informação e prevenção também são medidas protetivas.

Aprendi algumas coisas nessa tentativa de reduzir o medo constante e compartilho aqui.

Desejo que nunca precise usar. Mas conhecimento também é poder.

A VOVÓ SEMPRE ME AVISOU

Fui criada por duas mulheres fortes, especialmente minha avó Marrom (nome mantido para preservar sua privacidade). Desde pequena, ela dizia:

“Minha filha, se um dia alguém levantar a mão para você, vá a cozinha calada e ferva água […]”

Deixo a imaginação de vocês completar. Óbvio que ela falava em tom dramático, quase teatral. Naturalmente, violência não é solução. Mas o alerta por trás da frase sempre foi claro: não aceite sinais de agressão como algo normal.

A sociedade pode dizer o que quiser. Ser vítima nunca é culpa da mulher. Permanecer em situações de risco, no entanto, envolve fatores complexos (emocionais, econômicos, sociais) e não deve ser tratado com simplificação. Ainda assim, fortalecer nossa autonomia é uma forma de resistência.

Por isso, separei algumas atitudes práticas e legais para o dia a dia.

Dica 1: Faça a linha diva misteriosa

Em tempos de superexposição nas redes sociais, cuidado é inteligência. Evite postar localização em tempo real. Publique depois que sair do lugar. Pequenas informações podem ser usadas de forma indevida.

Na rua, evite fones com volume alto. Percepção é tempo de reação (os fones desligados ou som baixo, já ajudam muito).

Se um desconhecido insistir em perguntas pessoais, você não deve satisfações. Não informe endereço, rotina ou estado civil. Se for necessário, minta. Segurança vem antes de educação.

Quando percebo um comportamento estranho, uso uma estratégia simples: envio um áudio para alguém mencionando que estou indo encontrar um familiar. Demonstra conexão, reduz vulnerabilidade e pode inibir intenções maliciosas.

Nessa brincadeira, meu pai (ausente) já foi policial, delegado, lutador profissional e outras infinidade de profissões “imponentes”. Agora meu namorado que ocupa esse cargo (e ele sempre escuta os áudios e responde continuando a mentirinha e gosto de ouvir alto de propósito).

Dica 2: Spray de pimenta e dispositivos de defesa

Sprays de pimenta e armas de choque são permitidos para defesa pessoal, conforme regulamentação vigente. Caso opte por adquirir, busque informação sobre uso correto para evitar acidentes.

Mais importante do que portar é saber utilizar com responsabilidade.

Dica 3: Segurança em carros de aplicativo

Ao usar aplicativos de transporte:

  • Confira modelo, placa e foto do motorista.
  • Pesquise foto do veículo na internet.
  • Utilize o código de verificação sempre que disponível.
  • Compartilhe a corrida com contatos de confiança.
  • Observe a rota pelo aplicativo.
  • Se possível, sente atrás do motorista.
  • Em caso de comportamento suspeito, peça para encerrar a corrida em local movimentado e acione o suporte do app.

Dica 4: Prestadores de serviço em casa

Se possível, avise um vizinho ou porteiro quando um prestador de serviço for entrar em sua residência. Manter alguém informado sobre a presença de um desconhecido em casa é uma medida simples e eficaz.

Minha avó dizia: “Segurança morreu de velha.” E mal sabia que ela estivesse certa.

A violência contra a mulher é um problema estrutural. Combater exige políticas públicas, justiça eficiente e mudança cultural. Mas enquanto o mundo não se reorganiza, pequenas estratégias podem ampliar nossa margem de proteção.

Por hoje é só. Se tiver outras sugestões ou quiser uma parte dois, comenta aqui ou manda mensagem no Instagram do jornal.

Porque viver não deveria exigir manual de sobrevivência mas, enquanto exigir, que a gente escreva o nosso. 💛

Um beijo e um queijo!

Vejo você semana que vem!


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