“Tenho medo de sair de casa, mas tenho mais medo de não conseguir sair nunca mais”

Ouvir essa frase dita por uma criança de um anime duvidoso foi, no mínimo intenso, já que ter medo de sair de casa não é comum de se ouvir de alguém tão jovem — e, ainda assim, ela ficou em mim de um jeito que eu não esperava. Quando somos crianças, acreditamos que, ao chegar à vida adulta, saberemos exatamente quem somos, o que queremos e teremos respostas prontas para aquelas perguntas inconvenientes, como: “O que você quer ser quando crescer?”

Mesmo já crescida, eu não tenho essa resposta. Trabalho como jornalista desde o ensino médio e atuo na área de marketing há sete anos. Por fora, isso pode até parecer uma carreira (quase) sólida. Por dentro, só consigo definir com duas palavras: não é.

Comecei no jornalismo por causa da minha professora de Redação, Maria de Jesus. Ela viu talento em mim e convenceu minha família a me deixar seguir esse caminho. Se, por algum acaso, a senhora estiver lendo isso, saiba que te guardo no coração com muito carinho. Ser jornalista faz parte da minha identidade — afinal, meu usuário no Instagram é @_jornalis —, mas hoje já não tenho tanta certeza se ainda sou exatamente isso.

Escrever é uma paixão desde os nove anos, quando escrevi minha primeira fanficah, os anos 2000!. Até hoje, me expresso melhor escrevendo do que falando. O problema (para mim) é que, no marketing — área em que me especializei —, a escrita está cada vez mais curta, técnica, engessada, cheia de SEO e quase sem amor. Dramático? Talvez. Mas me deem um desconto: sou uma romântica incurável.

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Sempre acreditei que as palavras têm o poder de mudar vidas. Mas, com as redes sociais, sinto que as vidas não têm mudado necessariamente para melhor. Nada contra as redes — inclusive, tenho minhas criadoras de conteúdo favoritas, sem as quais não vivo. Mas, como alguém que entende um pouco do assunto (sim, sou humilde), aprendi a “educar” meu algoritmo: consumo apenas o que me interessa e silencio nomes que não quero nem saber que existem, como os divulgadores do famoso “tigrinho”.

Ainda assim, meu ponto é outro. Eu estava em um estágio profundo de depressão, completamente sem rumo. Até que, certo dia, percebi que havia passado duas horas em um aplicativo de vídeos curtos — sim, esse mesmo — sem sequer ter vontade de assistir. Abria o aplicativo nem que fosse por cinco segundos em qualquer brecha do dia. Foi aí que pensei: talvez eu não fosse tão diferente de uma dependente química. E isso, sim, foi assustador.

Minha meta inicial era ficar apenas sete dias sem usar o aplicativo, como um detox digital. Estudo psicologia por hobby e, nesse período, me deparei com artigos sobre o termo do momento: brain rot — algo como “apodrecimento cerebral”, uma forma informal de descrever a deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo digital. Como bem disse minha bestie, Vivi Ribeiro, essa “dopamina barata” dos vídeos superficiais e de baixa qualidade pode gerar problemas sérios: dificuldade de concentração e memória, redução da criatividade e consequências ainda mais profundas se não houver cuidado.

FIQUE OFFLINE. Sim, estou gritando para isso entrar bem no seu cérebro. Lembra da meta de sete dias? Já passaram mais de 30 — e, sinceramente, não pretendo instalar o aplicativo novamente. Terminei um curso que estava enrolando há meses. Encontrei um novo rumo profissional que tem me deixado genuinamente empolgada (nota mental: escrever sobre isso depois). Voltei a ler mais livros, leio revistas no café da manhã sem usar o celular, estou menos ansiosa, durmo melhor e, talvez o mais surpreendente: parei de fazer compras online por impulso.

Papo Sério!

Meu último trabalho me levou a um burnout intenso. Passei a ter medo de pessoas — e de sair na rua. Logo eu, que era a amiga da festa, que fazia amizade até com árvores (não é exagero). Hoje, fico com o coração disparado só de pedir para a cabeleireira tirar uma foto do meu cabelo. E é aqui que chego à f rase do título: “Tenho medo de sair de casa, mas tenho mais medo de não conseguir sair nunca mais.”

Eu não conseguia mais conceber a ideia de interagir com outras pessoas, especialmente homens. Não ia a festas ou baladas que sempre amei. Não descia para comprar um pão de queijo. Lugares fechados começaram a me assustar. Até o elevador ficou desconfortável. Embora isso ainda aconteça vez ou outra, eu não aguentava mais viver com tanto medo da rua.

Alguns anos atrás, minha música favorita era “A Rua”, do Jão. Quando ele canta que “a rua vai me proteger”, eu sentia aquilo de forma íntima e verdadeira. Hoje, já não faz tanto sentido. Mas ainda na mesma música, ele diz que “a lua abraça a minha indecisão”. E eu queria voltar a me sentir abraçada pela lua. Então, simplesmente, disse: CHEGA.

Como sair da deprê? Bom…

Passei a me forçar a sair, mesmo sem vontade — sempre respeitando meus limites. Coloquei alarmes no celular para lembrar de mandar mensagem para amigos e me obrigar a socializar. E, por fim, tomei a decisão de excluir aquela plataforma específica da minha vida, além de limitar o uso do Instagram e do Twitter (ou X, se preferir) a duas horas por dia.

As conversas com amigos começaram a fluir de forma mais natural. Consegui até elogiar a camisa de Spy x Family de uma vizinha do décimo andar dentro do elevador. Pode parecer pouco, mas foi um passo enorme.

Enquanto escrevo este texto, estou no Starbucks do Pátio Paulista, na Avenida Paulista, em São Paulo. Como boa fanfiqueira que sou, trouxe meu computador para tomar um frappuccino de chá verde com mocha branco e comer um croissant multigrãos enquanto tentava organizar o que estava no coração. Foi isso que saiu: um texto digno de uma adolescente dos anos 2000.

Confira “Filhos do Silêncio” de Andrea dos Santos

Recado pra quem precisar:

Às vezes, não sabemos quem somos, qual é o nosso lugar ou quem queremos ser. Tenha paciência consigo. Diminua — nem que seja um pouco — o uso das redes sociais e volte o foco para a pessoa mais importante da sua vida: aquela que você vê no espelho.

P.S.: Enquanto finalizava este texto, um rapaz aqui no Starbucks pediu licença para usar a tomada perto de mim. Ele puxou uma cadeira, esticou o cabo para conectar no notebook. Apesar de não ter olhado nos olhos dele (nem tudo é perfeito), ofereci metade da minha mesa, já que estava de saída. Mais uma pequena vitória. Viu? Seja gentil consigo. Se existe alguém capaz de mudar a sua vida, é você mesma.

P.S.2: Agora enquanto edito o texto para publicar, venho diretamente do futuro para falar que depois que guardei o notebook, o rapaz do Starbucks me agradeceu e me deu um sorriso sinceramente agradecido.

P.S.3: Enquanto voltava para casa, encontrei meu namorado, que voltava do trabalho, no metrô e voltamos juntinhos para casa. Ei, quando o dia estiver ruim, lembre-se que sempre vão ter dias bons também, tá?

A vida não é um morango. Mas ainda assim, a gente morde. 🍓

(espero que enfim) Até semana que vem!


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Um comentário

  • Querida Lis,

    O texto que você criou demonstra com exatidão tudo o que tem vivido nos últimos tempos, evidenciando o esforço que vem fazendo para superar seus medos e demais conflitos internos.

    Espero que esse texto incentive milhares de pessoas que estejam passando por situações semelhantes a se encorajarem e a buscarem dias melhores, assim como você tem feito.

    Parabéns!

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