A quarta-feira de cinzas não encerra apenas o Carnaval. É também quando o país, simbolicamente, “volta a funcionar”. As promessas do Ano Novo começam a bater na porta. O famoso “vejo isso depois do Carnaval” deixa de ser desculpa e vira realidade. Seja com ressaca ou alívio, sentimos que agora o ano começou de verdade.
“Oh quarta-feira ingrata
Chega tão depressa
Só pra contrariar.”
A música popular brasileira nos deu diversas canções sobre o feriado, mas essa chama atenção por um motivo simples: a intimidade com que fala da data como se fosse uma pessoa. E, de fato, o último dia de Carnaval chega rápido. Boa parte dos brasileiros gostaria de emendar a quinta e a sexta, prolongar a fantasia, adiar o retorno.
Mas, infelizmente, é só até as 12h30 da quarta-feira.
A quarta-feira de cinzas marca a nossa tradição não oficial: o ano só começa depois do Carnaval. Janeiro é aquecimento. Fevereiro é expectativa. Março chega com cobrança – o início do prazo do Imposto de Renda é um exemplo perfeito de como o terceiro mês do ano impacta a vida de todos.
Tudo o que é “chato” e burocrático deixamos para “depois do Carnaval”, e a quarta-feira de cinzas marca o ponto de virada: da alegria da folia para a densidade da responsabilidade.
E talvez por isso ela pese tanto.
Porque, diferente do réveillon – cheio de promessas empolgadas – o fim do Carnaval traz uma mensagem implícita: está na hora de cumprir seus combinados. Seja com você mesma ou com outras pessoas. Sabe aquela lista de metas que você jurou que resolveria “quando o ano começasse”?
Spoiler: começou.
Ritual da quarta-feira de cinzas, seja você cristã ou não
Historicamente, a data marca o início da Quaresma no calendário cristão, período de reflexão, penitência e mudança de postura. Mas, para além da religião, existe algo profundamente simbólico nesse dia: ele convida à pausa.
Mesmo que você não faça a Quaresma, fica uma sugestão — e cristãs também podem aderir: que tal sentar com a sua lista de metas e avaliar quais são realistas e possíveis, e quais precisam de ajuste? Se for necessário adaptar ou reformular, este é um bom momento.
Dessa vez, sem euforia ou fantasia, vale se perguntar: quem eu sou quando o glitter sai? (No sentido figurado, porque sabemos que o glitter ainda vai durar alguns meses pela casa.)
Apesar da ressaca – seja alcoólica ou moral – talvez a quarta-feira de cinzas seja menos sobre arrependimento e mais sobre consciência. Que tal se cobrar menos e pensar de forma mais carinhosa consigo mesma?
Se no seu Dream Board está “comprar um carro”, mas isso ainda não é possível, comece pelos pequenos passos. Tirar a habilitação. Pesquisar financiamento. Organizar uma reserva. Não adianta querer uma Ferrari se você ainda não sabe dirigir – desculpa pelo tapa virtual, mas é para o nosso bem.
Pare de se punir por tudo o que você adiou. Escolha, com maturidade, o que ainda faz sentido carregar para o resto do ano e o que pode ser riscado.
Ajustar a rota também é avançar
A sua vida não ficou como está do dia para a noite. Então não espere mudar totalmente em 24 horas. Ajustar a rota é diferente de desistir. Às vezes, é só aceitar que algumas metas eram empolgação de janeiro.
Talvez você precise de um novo formato. Planejar com mais gentileza e parar de romantizar o cansaço.
Se a meta é fazer exercício físico cinco vezes por semana, mas você se conhece e sabe que não vai sustentar isso agora, comece menor. Use menos o elevador. Desça as escadas. Alongue-se ao acordar. Aos poucos, você constrói um corpo mais ativo e cria consistência.
Lembre-se: você tem o ano inteiro para cumprir suas metas. Respire.
A vida não é um morango – especialmente depois de um feriado prolongado – mas dá para plantar outro no lugar. Na coluna Morangos da Vida, a gente já aprendeu que a vida não é doce o tempo todo, mas também não é só cinza.
Se o Carnaval foi fuga, descanso ou excesso, tudo bem. Acolha-se. Defina prioridades. Estabeleça passos possíveis. O importante é entender que o “depois” chegou e, ao mudar a perspectiva, ele não precisa ser assustador.
A quarta-feira de cinzas não precisa ser o fim da festa. Pode ser o começo de uma versão mais consciente, mais estratégica e mais gentil de si mesma.
Uma flor não nasce de um dia para o outro. Precisa ser regada, tomar sol e respeitar o próprio tempo.
Que você faça deste ano não aquele em que cumpriu todas as metas da lista, mas aquele em que entendeu o seu ciclo — e decidiu florescer com mais leveza.
Esse foi um texto extra para compensar que não tivemos ontem.
Um beijo e um queijo!
Vejo você semana que vem!

Agora toda Terça-feira às 08h08!









