Você procrastina?
Essa pergunta tem dois lados: de um, você estaria mentindo para si mesmo; do outro, admitindo uma característica vista com maus olhos. O que importa é: nunca minta para si. Dito isso, eu sou, sim, uma pessoa procrastinadora. Decidi o tema da coluna há cinco dias, mas não me sentia inspirada; achei que depois viria uma ideia incrível e faria algo lindo. Surpresa: cedi a procrastinação!
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Navegando pelo Kindle após terminar uma leitura, me deparei com um livro chamado “PROCRASTINAÇÃO: Guia científico sobre como parar de procrastinar (definitivamente)”, publicado em 2017 por Lilian Soares. Após uma investigação moderada, não encontrei absolutamente nada sobre a autora. Nem mesmo no próprio livro há uma seção “sobre”. Ainda assim, nossa “autora fantasma” tem falas muito pertinentes.
FANTASMAS DA PROCRASTINAÇÃO
Não sou a maior fã de livros de autoajuda, mas, como havia “científico” no título, senti vontade de ler uma amostra. E deixo aqui um “obrigada” à minha versão do passado por isso. No primeiro capítulo, ela contextualiza o tema a partir da relação entre os estilos de Henry Ford e da Toyota (Kaizen). Sem me estender muito, a autora afirma que, enquanto Ford enfatizava produzir mais rápido e barato, a Toyota focava em qualidade, eficiência e flexibilidade.
Talvez você esteja se perguntando: “Poxa, Lisa, quem quer saber de Revolução Industrial uma hora dessas?”
“Ao equilibrar a rigidez e a padronização das rotinas de Ford com a flexibilidade e o aprimoramento contínuo do Kaizen, qualquer pessoa pode otimizar seu dia a dia”, responde a autora.
Nesse mundo que nos cobra uma produtividade excessiva, há algumas coisas que nos assombram e são difíceis de exorcizar. Às vezes, aquela voz na sua cabeça diz que você funciona melhor sob pressão, avisa que está sem criatividade ou que simplesmente está esgotada por hoje. É o famoso “amanhã eu faço”.
O AMANHÃ CHEGOU
O dia que antecede o prazo transborda ansiedade. É o momento em que os sentimentos de culpa e inadequação se fortalecem, resultando em um ciclo repetitivo de adiamento sempre que surge algo importante. Já que faz tão mal assim, por que continuamos fazendo isso?
A princípio, Lilian aponta três respostas: imagem, reputação e saúde mental. Neurologicamente, reforçar esse comportamento no cérebro não prejudica apenas o trabalho, mas afeta até a saúde física. O estudo feito por Anna B. Chu e Joseph R. Ferrari aponta que “procrastinadores crônicos frequentemente experimentam níveis inferiores de bem-estar e desempenho acadêmico, devido ao estresse e à ansiedade”.
MAS EU NEM PERCEBO QUANDO FAÇO ISSO
Nós, procrastinadores, geralmente nos perguntamos o tempo todo o motivo dessa “enrolação toda”. E é difícil responder, afinal, nem nós sabemos ao certo. Embora pareça um labirinto, o livro traz uma solução simples logo no início.
Aceita que dói menos! Bom, não foi exatamente assim que ela escreveu, mas, segundo Lilian, ao compreender seu comportamento e como ele é visto, tornamo-nos mais autoconscientes, o que leva a uma autoavaliação crítica. A partir do momento em que você reconhece o problema e os custos da inação, a tendência é haver mudanças proativas. Afinal, a procrastinação é, em última análise, a ausência de progresso.
O QUE FAZER ENTÃO?
Infelizmente, tarefas não resolvidas tornam-se fantasmas da carga mental, provocando culpa, medo e distração. Me senti culpada porque não conseguia escrever uma única frase; então, surgiu o medo de falhar. Dois dias antes do prazo, fiquei na frente do computador esperando um texto brilhante surgir, mas me distraía até com uma mosca voando lá fora. No último dia, a culpa me sufocou de tal forma que o bloqueio se tornou absoluto.
Hoje acordei cedinho para entregar antes do horário, mas ainda não saía nada. Estava estudando e, quando olhei, o relógio já marcava 10h40. A “faca da culpa” cravou no peito. Pensei em fazer uma pequena nota avisando que não haveria texto hoje. Porém, a Morangos da Vida é um compromisso que fiz comigo mesma — e eu estava prestes a quebrá-lo.
O grande problema do “amanhã eu faço” é que você faz planos para o seu “eu do futuro”. Mas o único que realmente pode agir é o seu “eu de hoje”.
MINHA SOLUÇÃO ATÉ AQUI
Ainda estou lendo o livro, mas o que aprendi até agora é o valor do registro. Eu anoto absolutamente tudo: desde demandas do trabalho até passear com a Aurora. Me pergunto: quais tarefas não podem ser adiadas? Depois, as que podem. Se “jogar para amanhã” não trouxer consequências ruins, eu nem hesito. E se há algo simples que eu possa fazer hoje para facilitar a vida da Lisa do futuro, eu faço.
Por exemplo, se minha lista for:
- Fazer as compras do mês
- Passear com a Aurora 🐈⬛
- Terminar o relatório
- Ler por 15 minutos
- Hidratar o cabelo
O que é inadiável? O passeio e o relatório. O que pode ficar para amanhã? A hidratação. O que dá para adiantar? A lista de compras. Ao visualizar as atividades fora da cabeça, o monstro da procrastinação diminui de tamanho.
Uma dica minha: identifique na sua lista as tarefas que levam menos de 5 minutos e faça todas de uma vez. A carga mental diminui bruscamente e o dia fica mais leve.
Não consegui entregar no prazo exato, mas a ideia brilhante veio justamente quando aceitei que estava atrasada e decidi lidar com as consequências. Escrevi exatamente sobre o ato de não cumprir prazos. Minha procrastinação se tornou a matéria-prima deste texto — que surgiu na tela com um pouquinho de atraso, mas com toda a verdade que o momento pedia.
Um beijo e um queijo!
Vejo você semana que vem!










