Como bem disse Mariah Carey: “All I want for Christmas is you”. Nesse caso, o “you” é um pouco de paz — para quem convive com algum transtorno mental ou para quem “pega” a famosa doença desta época do ano: a dezembrite. É tempo de empatia no ar, certo? Então lembra: pra muita gente, nem tudo é tão Feliz Natal assim. Valeu, Natalina, mas podia passar um pouco mais rápido?
Dezembrite: a tristeza no Natal
Apesar do discurso oficial de alegria, união e luzes piscando, o último mês do ano pode intensificar o sofrimento psíquico. A pressão para estar feliz, as cobranças internas, os reencontros familiares e o cansaço acumulado transformam o período em um terreno sensível — mesmo para quem não tem diagnóstico algum. No Brasil, sem inverno pra culpar, a tal depressão sazonal costuma ter causas emocionais e sociais: expectativas irreais, comparações, solidão, conflitos familiares e a obrigação silenciosa de sorrir.
É difícil acompanhar essa alegria performática. Desejar “Feliz Natal” para a moça do caixa, que retribui com um sorriso exausto de quem trabalha no comércio em fim de ano, às vezes pesa mais do que deveria.
Saúde mental no Natal
A pergunta surge, quase sempre acompanhada de culpa: por que eu não sou feliz no Natal?
Talvez porque coisas ruins continuam acontecendo. Pessoas morrem, famílias estão distantes, doenças não tiram férias, desigualdades seguem gritando. Nem todo mundo consegue entrar no clima — e tudo bem.
Aqui a crônica fica pessoal.
Fui criada por alguém que já não ligava para o Natal havia anos. Passei algumas datas como convidada por pena, até entender que ser intrusa na festa alheia pode doer mais do que passar sozinha. A última tentativa foi numa mansão em Brasília: árvore digna de shopping, presentes com nome, taças reluzentes. Filme natalino perfeito — exceto por um detalhe: eu era a única sem amigo secreto. Ganhei um presente reaproveitado, “só pra não ficar sem nada”.
Eu tinha pouco mais de dez anos. Depois disso, passei muitos Natais só com minha cachorrinha, Lili, hoje no céu. Criamos nossa própria tradição: comida feita por mim, presentes embrulhados, suco de uva na taça fingindo ser vinho, pijama confortável, filmes natalinos e choro liberado à meia-noite. Parecia triste — e foi, por um tempo. Até eu entender que aquela também era uma forma legítima de Natal. E, sinceramente, eu amava.
Estratégias de sobrevivência natalinas
- Ignore quem disser “você deveria estar feliz, é Natal”. Isso não é empatia, é cobrança. (Mesmo se for seus pais)
- Reduza redes sociais. Story é corte estratégico da realidade — ninguém posta o barraco antes da foto.
- Mantenha sua rotina. Sono, movimento, luz do dia. O básico também salva.
- Não minta pra si mesmo. Falar com quem você confia diminui o peso de carregar tudo sozinho.
O Natal não precisa ser sinônimo de felicidade. Pode ser apenas respeito aos próprios limites. Cuidar da saúde mental nessa época não é fraqueza — é coragem.
Confira “Filhos do Silêncio” de Andrea dos Santos
Depois de muitos Natais solitários, hoje passo a data com a família do meu namorado, Gustavo, que me acolhe com carinho. Ainda é estranho, ainda fico sem jeito. Mas pra quem achou que estava condenada à solidão natalina eterna, isso já é muito.
Desejo a vocês paz. Um conforto possível no peito. E força pra atravessar o que precisar ser atravessado — ano que vem tem mais.
Se a tristeza for profunda ou persistente, buscar ajuda profissional é essencial. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende 24h pelo telefone 188, inclusive durante as festas.
P.S.: uma playlist de Natal pode ajudar a enfrentar a grande batalha — seja a reunião de família ou a própria companhia. Segue a minha indicação:
(de coração) Feliz Natal, moranguinhos 🍓✨
Até semana que vem!










