“Mulher, abre logo tua empresa!” não é um mero título hoje: é um ultimato para toda mulher que tem medo de sair do mundo corporativo e se jogar no empreendedorismo. Em uma sociedade onde ser mulher ainda é tratado como desvantagem, tomar uma atitude é revolucionariamente necessário. E entre eu e você aqui, sabemos que quem sempre fez o mundo girar foram as mulheres – e não deixe essa onda de conservadorismo que se impregnou internet afora te enganar.
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A HISTÓRIA (NÃO) CONTADA PELOS HOMENS
A Revolução Francesa (1789) não teria começado sem a Marcha das Mulheres a Versalhes. Antes de Lenin fazer seus discursos inflamados, foram as donas de casa exigindo pão que desencadearam a Revolução Russa. Mahatma Gandhi foi o rosto da Independência indiana, mas quem sustentou a revolução foram as mulheres, organizando boicotes, greves e muito mais.
Sabe quem é Martin Luther King Jr.? Você -e o mundo- sabem quem ele é graças a Rosa Parks, que se recusou a ceder seu lugar no ônibus, dando o pontapé inicial para o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, em 1955.
Sabe por que conseguimos fazer raio-X hoje? Porque James Watson e Francis Crick se apropriaram de pesquisas sem o consentimento de Rosalind Franklin, que produziu a Foto 51, imagem de difração de raios X do DNA. Rendeu até um Nobel — mas não foi para Rosalind.
A história mostra que mulheres sempre estiveram no centro das grandes viradas da humanidade. Ainda assim, em pleno 2026, seguimos sendo tratadas como exceção, risco ou aposta incerta.
QUEM VIVE DE PASSADO É MUSEU (?)
E se alguém acredita que tudo isso ficou no passado, provavelmente desconhece a frase: “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, dita por Karl Marx. Se um filósofo comunista não é uma boa fonte para você, aqui vai algo que nunca mente: os números.
Em 2025, segundo relatório da Grant Thornton Brasil, 36,7% das mulheres ocupam cargos de liderança em empresas de médio porte. Em grandes negócios, o número cai para 17,4%.
Já o Ministério das Mulheres, por meio do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam 2025), aponta que as mulheres ganham aproximadamente 79,3% do salário masculino no Brasil. Em relação à educação, o cenário é ainda mais grave: 69,5% das jovens entre 15 e 29 anos não estudam, e quase metade delas são pretas ou pardas.
Apesar disso, a maioria dos lares no Brasil é chefiada por mulheres – cerca de 40,2 milhões de domicílios. E, ainda assim, somos as que recebem menos, lideram menos e estudam menos. A conta não fecha, certo?
“GERIR UM LAR É DIFERENTE DE UMA EMPRESA”
Muitas de nós não levamos nossas ambições adiante por insegurança e desencorajamento, afinal, crescemos ouvindo que isso é “trabalho de homem”. No entanto, essa lógica é facilmente contestada.
A CEO e fundadora da CKZ Diversidade, Cris Kerr, traz outra perspectiva ao afirmar que empresas com lideranças femininas apresentam diferenças estruturais importantes. Segundo ela, mulheres tendem a liderar com mais escuta ativa, colaboração e maior atenção à segurança psicológica. E completa:
“Não porque mulheres ‘nasceram assim’, mas porque foram socializadas a ler o ambiente, negociar espaço e cuidar das relações para sobreviver profissionalmente.”
Enquanto isso, os homens são socializados para o risco – “errar faz parte do caminho”. Já na visão da psicóloga e neuropsicóloga Dayane Louise, as mulheres são educadas para enxergar o erro como falha grave de caráter. Para ela, o medo não é individual, é estrutural. Como afirma:
“O homem teme perder dinheiro; a mulher frequentemente teme perder valor — como profissional, como mãe, como companheira, como mulher ‘responsável’. O medo feminino costuma ser atravessado por perguntas silenciosas: ‘E se eu falhar, quem vai pagar o preço?’”
QUANDO É A HORA DE COMEÇAR NO EMPREENDEDORISMO?
Nenhuma, ou melhor, agora!
A verdade é que não existe o tal “momento certo” quando o sistema foi desenhado para nos fazer esperar. Como aponta Dayane Louise, muitas mulheres só se autorizam a tentar quando já estão exaustas. E isso não é prudência: é sobrevivência.
O problema nunca foi falta de preparo, mas um mercado que filtra oportunidades por gênero e raça. Quando o mundo corporativo não oferece espaço seguro para crescer com dignidade, talvez a resposta não seja insistir nele – e sim criar o nosso próprio.
Em outras palavras, empreender, para muitas, não nasce de ambição desmedida, mas da necessidade de continuar existindo sem adoecer, com algum controle sobre a própria vida.
Ao mesmo tempo, há histórias como a de Amora Sales, CEO e fundadora da Amora Luxe Tour, que transformou sua paixão por viagens em negócio. A empresária conta que nunca duvidou de sua capacidade, mas admite que houve questionamentos:
“Perguntava a mim mesma: será que as pessoas vão entender essa proposta? Será que vou conseguir levar o luxo personalizado até quem realmente valoriza?”
Começar pode ser um ato de liberdade ou uma escolha consciente. Transformar paixão em projeto, necessidade em produto é algo que não só podemos como devemos fazer e isso não depende da existência de uma “hora certa”.
“No meu caso, optei por não esperar o momento ideal. Hoje concílio a carreira corporativa com um negócio iniciado em 2024. A Purposeful Career nasceu do meu desejo de apoiar profissionais e empreendedores, em diferentes partes do mundo, a compreenderem melhor seu propósito e a construírem uma jornada de sucesso alinhada aos seus valores.”
Relata Isabel Camargo, empresária e integrante de um grupo de voluntariado formado por mulheres brasileiras que vivem na Inglaterra, com foco que vai além do empreendedorismo. Experiências como essa mostram que o passo não precisa ser solitário nem abrupto: redes de apoio, mentoria e preparo emocional fazem parte do caminho.
No fim, o medo não desaparece. Ele muda de lugar, como todas as entrevistadas disseram à sua maneira. Talvez a pergunta nunca tenha sido “quando é a hora certa?”, mas sim: até quando vamos esperar autorização?
Quando uma mulher decide abrir o próprio negócio, ela não cria apenas uma empresa. Ela cria espaço no mundo e constrói sua independência. E convenhamos: em um mundo que sempre nos quis menores, querer por si só já é revolução.
P.S. Mulher, não vista a camisa de nenhuma empresa que não seja a sua.
Até semana que vem!










