O Jogo — Parte 1: Futebol e a volta do pão e circo

Como jornalista especialista em futebol, digo com segurança que futebol, dinheiro e política estão intrinsecamente ligados, e essa conexão passou a ser mais visível para os torcedores. “Dinheiro não joga futebol, mas jogar futebol sem dinheiro é mais difícil.” Essa frase é da minha monografia, escrita em 2019, e hoje, em 2026, ela soa quase ingênua. Isso porque o esporte amado pelo povo (e por mim) se tornou tão corporativo quanto a Faria Lima, em São Paulo. Além do dinheiro -talvez até acima dele- está a politicagem. Foi então que notei a quase explícita volta do pão e circo.

E esse cenário se torna ainda mais simbólico quando lembramos que estamos a 139 dias da Copa do Mundo de 2026, uma das edições mais ambiciosas e controversas da história do esporte.

Pão, história e futebol: quando o jogo vira espetáculo

Em 1930, eram apenas 13 países na competição. Ao longo das décadas, o torneio cresceu, mudou de formato e se consolidou como o maior espetáculo do futebol mundial. Hoje, em 2026, a evolução não é apenas numérica ou técnica, mas também simbólica: o futebol, novamente, é palco de grandes narrativas de poder.

Nesta edição, o Mundial acontecerá nos Estados Unidos, México e Canadá, com um formato monstruoso: 48 seleções, 104 partidas e um calendário cruel para os atletas. Contudo, um dos países-sede está com o míssil apontado para a América Latina e tem a Europa como alvo de tarifas superfaturadas. Ainda assim, o presidente desse país é bajulado pela organização mais importante do esporte.

No fim de 2025, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) entregou seu novo Prêmio da Paz a Donald Trump, presidente estadunidense — uma honraria criada, segundo a FIFA, para alguém que tenha tomado “medidas excepcionais e extraordinárias pela paz e, ao fazê-lo, unindo pessoas em todo o mundo”.

O que é? O que é? Está fora da Copa e foi bombardeado pelos Estados Unidos?

Sim, a Venezuela não está apenas desclassificada da Copa, como viu seu líder ser retirado de seu país em meio a um dos episódios mais controversos da política internacional recente. A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela teve bombardeios em Caracas e a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa por forças norte-americanas.

Em meio à celebração de um “prêmio de paz”, testemunhamos um jogo de poder no qual a vida real se confunde com o espetáculo, e o “pão e circo” volta à cena com novos efeitos especiais. Ademais, é aqui que a ironia e o passado obscuro da humanidade se encontram.

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Mussolini, Hitler, Putin e Trump: o esporte como propaganda

Na Roma Antiga, o governo oferecia comida e entretenimento aos pobres para distraí-los e evitar revoltas. Essa foi a política do pão e circo. Porém, esse “truque” foi reutilizado no século XX por Benito Mussolini e Adolf Hitler. Pode-se dizer que esse método voltou a ser usado em 2018 por Vladimir Putin e, agora, em 2026, por Donald Trump.

O ditador Mussolini enviou seu general Giorgio Vaccaro para “convencer” a FIFA a levar a edição de 1934 para a Itália, afirmando que dinheiro não seria problema. Todos os delegados votaram sim. Nas partidas da Copa, eram entregues aos jogadores bilhetes que diziam: “vitória ou morte”. Seja como for, a seleção italiana venceu a final contra a Tchecoslováquia.

Percebendo os resultados positivos obtidos pelo fascismo italiano, Adolf Hitler repetiu a dose em 1936, quando levou as Olimpíadas para a Alemanha. E não parou por aí: tentou conseguir sediar a Copa de 1938, mas, no fim, o Congresso da FIFA definiu a França como sede, onde Mussolini e seus bilhetes foram bicampeões.

Em 2018, a Copa do Mundo da FIFA funcionou como uma rara abertura da Rússia ao mundo. Após a anexação da Crimeia, território da Ucrânia, em 2014; a intervenção militar na guerra civil síria, a partir de 2015; e as acusações de interferência nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016, Vladimir Putin se reelegeu com ampla vantagem e apostou no torneio como estratégia de soft power para “normalizar” a imagem do país no cenário internacional.

A Alemanha não durou muito nem no verão russo e, desta vez, diferente de Napoleão, a França venceu. A organização e a modernização como um todo impressionaram a mídia internacional. Mas a boa impressão durou até 24 de fevereiro de 2022, quando Putin ordenou a invasão e o bombardeio do leste da Ucrânia.

Quatro dias depois (28/02/22), a FIFA decidiu suspender a participação russa na Copa de 2022, no Catar, em consequência das agressões do país à Ucrânia.

Dois pesos, duas medidas no futebol mundial?

Precisamente 3 anos, 10 meses, 10 dias e algumas horas depois, Trump invadiu e bombardeou a Venezuela e sequestrou Maduro e sua esposa. Tanto em 2022 quanto em 2026, ambos os países invadiram e bombardearam outro país; a diferença é que Trump ainda sequestrou e prendeu um presidente eleito de outro país.

Engraçado pensar que tudo isso aconteceu poucos dias depois de receber o prêmio da FIFA e dizer que queria paz para o novo ano. Em 3 de janeiro de 2026, Trump atacou a Venezuela e, até agora, não houve nenhuma suspensão ou punição.

Qual a diferença entre a Rússia e os Estados Unidos, FIFA?

Africanos, asiáticos e latino-americanos são vítimas constantes de deportações, mesmo com vistos legais. Nesta edição, estão classificadas 9 seleções da África, 2 da Ásia e 3 da América Latina, inclusive o país-sede México. Será que jogadores e comissões técnicas terão dificuldades para entrar no país?

Futebol e política sempre andaram de mãos dadas, mas a realidade atual da geopolítica mundial é a iminência de uma Terceira Guerra Mundial. Embora a Copa tenha três sedes, o foco do mundo está no solo estadunidense. O timing entre o ataque e a Copa pode ser apenas uma coincidência, mas não deixamos de nos questionar se não foi proposital.

Considere que sim. Nesse cenário, o futebol virou distração política mas, neste mundo, não existe “almoço grátis”: há alguém financiando e apostando nesse silêncio.

Até amanhã!


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