A publicação de hoje seria sobre uma lista de livros para desenvolver consciência política. Mas pareceu irônico escrever sobre isso quando nós, mulheres, mal conseguimos sobreviver. No que diz respeito aos casos de feminicídio, dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que cerca de 1.470 mulheres foram assassinadas em 2025, o que equivale a aproximadamente quatro mortes por dia. No último domingo, dia 8, foi celebrado o Dia da Mulher. Mas há, de fato, o que comemorar?
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Certamente não para as 3,7 milhões de brasileiras que sofreram algum tipo de violência no ano passado, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
“É literalmente impossível ser uma mulher”, diz a personagem interpretada por America Ferrera no filme Barbie (2023). O trecho viralizou nas redes sociais e resume uma sensação que muitas mulheres conhecem bem.
Assista ao trecho completo abaixo — ele também está disponível dublado em português:
Tenha você 15 ou 50 anos, esse discurso entra na alma de um jeito que palavras muitas vezes não conseguem explicar. Fora do mundo cor-de-rosa da Barbie, seguimos lidando com a privação de direitos humanos básicos.
Embora hoje possamos votar, abrir uma conta bancária ou comprar uma casa mesmo solteiras, isso não significa que possuímos liberdade plena. O direito de ir e vir ainda é limitado por uma pergunta silenciosa que acompanha muitas mulheres todos os dias: é seguro?
Afinal, muitas ainda não podem ir ao bar, à academia ou simplesmente voltar para casa sozinhas sem calcular riscos. Na prática, existe uma infinidade de “não podemos”.
Quatro histórias que mostram o tamanho do problema
Em 2026, até o mês de março, relatos indicam um cenário grave de violência contra mulheres no Brasil, com casos de feminicídio e violência sexual amplamente registrados pela imprensa e por observatórios de segurança pública.
Ao fazer um recorte apenas do ano de 2026 — que, lembro-lhes, mal tem três meses — já encontramos números alarmantes. Segundo dados da Rede de Observatórios da Segurança, 12 mulheres, em média, são vítimas de violência por dia em nove estados monitorados pela instituição.
Pode parecer exagero. Não é.
Abaixo estão apenas alguns exemplos registrados nos primeiros meses do ano.
01/01 — Bom Repouso (MG)
Bruna Aline Rodrigues de Souza, de 27 anos, foi morta pelo ex-namorado no primeiro dia do ano, por volta das 2h da manhã, na frente dos filhos pequenos.
31/01 — Rio de Janeiro (RJ)
Uma adolescente de 17 anos foi emboscada e levada a um apartamento em Copacabana, na zona sul da cidade, onde sofreu um estupro coletivo. Cinco pessoas foram indiciadas: quatro homens entre 18 e 19 anos e um menor de idade.
21/02 — Nova Prata (RS)
Roseli Vanda Pires Albuquerque, de 47 anos, diretora-administrativa da Secretaria de Esporte e Lazer, foi morta em seu apartamento. O principal suspeito é Ari Albuquerque, ex-marido da vítima por 28 anos. Ele também foi encontrado morto no local, e a polícia suspeita de suicídio após o crime.
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24/02 — São Paulo (SP)
Priscila Ribeiro Verson, de 22 anos, foi espancada pelo namorado após sair de uma festa. Priscila era amiga de Tainara Souza Santos, morta em dezembro de 2025 após ser atropelada e arrastada na Marginal Tietê.
A verdade é que eu poderia passar horas citando casos apenas deste ano. Mas qual é o propósito disso além de nos aterrorizar ainda mais?
Se você leu o texto publicado aqui duas semanas atrás, em 24 de fevereiro, viu que eu busquei discutir estratégias de prevenção. Nele tento responder a seguinte pergunta: existe alguma forma de agir antes do crime acontecer?
Ali apresento algumas reflexões. Mas o objetivo desta coluna hoje é outro: mostrar que o problema não está apenas nos números ou nas manchetes. Ele também aparece em discursos cada vez mais comuns nas redes sociais.
A magreza extrema voltou. Por que será que querem mulheres tão magras e pequenas?
A mulher não precisa trabalhar. Por que será que não querem que tenhamos nosso próprio dinheiro?
Se não dividir a conta do jantar, é chamada de interesseira. Mas, ao mesmo tempo, dizem que independência financeira não é necessária. Agora virou moda dizer que mulheres odeiam homens. Por que será que isso está acontecendo?
“Se os homens não existissem, quem iria proteger vocês?”
Provavelmente você já ouviu um machista repetir exatamente essa frase. E a resposta é simples: proteger do quê?
Agora eu quero propor um exercício rápido.
Se você é homem e chegou até aqui, responda sem pensar muito: cite três mulheres que você admira profundamente.
Mas há uma regra: não pode ser sua mãe, sua namorada, sua irmã, sua avó, sua professora favorita ou alguma amiga próxima. Ninguém do seu círculo pessoal. Apenas mulheres que você admira.
Se você é mulher, faça essa mesma pergunta a um homem com quem convive.
Três nomes. Parece fácil. Mas muitas vezes o silêncio vem antes da resposta. E isso diz muito.
Porque mulheres extraordinárias existem e sempre existiram.
Marie Curie mudou a história da ciência.
Rosa Parks ajudou a desafiar a segregação racial.
Frida Kahlo transformou dor em arte que atravessou gerações.
Malala Yousafzai enfrentou o Talibã para defender o direito das meninas à escola.
A lista poderia continuar por páginas.
Mas, se os nomes não vêm à cabeça com facilidade, talvez o problema nunca tenha sido a ausência de mulheres extraordinárias. Talvez seja apenas a falta de costume de reconhecê-las.
Um beijo e um queijo!
Vejo você semana que vem!









