Neste segundo encontro do Clube do Livro, as câmeras estavam fechadas e as vozes foram as protagonistas. No último dia do mês, os Morangos em Trânsito estacionaram no fim da tarde para mais uma reunião mensal de agentes literárias secretas. Em uma era marcada pela exposição constante, a conexão sem imagens se transformou em presença marcante — e os minutos passaram rápidos demais.
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Câmeras Fechadas, Presença Real
Somos humanas. E há dias em que não queremos aparecer, apenas participar. Cada uma com seu contexto, decidimos não mostrar nossos rostos. A vida real não cabe em uma moldura bonita e tudo bem.
A presidente simbólica que lhe escreve também estava off. Meus motivos foram dois: Aurora decidiu bagunçar a casa inteira poucas horas antes do início da reunião. E eu, em um impulso culinário quase dramático, resolvi preparar um almoço — quase janta — complexo demais, passando a tarde entre panelas e temperos, sem tempo de me arrumar. “Deus me livre parecer feia”, pensei, rindo de mim mesma.
Refleti como sempre queremos parecer prontas para tudo, mas às vezes a nossa voz é mais do que suficiente para preencher um espaço que já nos pertence.
Literatura Entre Gerações
Desta vez, foram cinco mulheres, contando comigo, reunidas para um momento que já começa a ganhar forma própria. A agente A** nos deu a graça de sua companhia mais uma vez, enquanto três outras estreantes aceitaram o convite secreto.
Com autorização dos pais, a agente So***, com quase 14 anos, decidiu estar conosco naquela tarde de sábado (28). A juventude em sua voz era clara e gentil, e me fez perceber que valeu cada cuidado ao preparar a dinâmica para que não houvesse nada inapropriado para uma agente tão jovem.
Em contraste — ou melhor, em harmonia — a agente J**D, mãe há nove anos e uma das nossas participantes mais experientes, mergulhou com entusiasmo nas perguntas da roleta. Suas respostas evocavam nomes que eu não ouvia desde a escola. E completando a chamada estava a agente S**i, a primeira a entrar e dividir comigo o silêncio inicial das boas-vindas.
Literatura é livre de qualquer amarra social, inclusive da idade. Ver isso na prática foi estonteante. Uma mãe e uma adolescente podem, sim, se emocionar com as mesmas perguntas sobre suas obras favoritas. So*** me deixou com vontade de ler uma HQ de romance adolescente, enquanto J**D reacendeu em mim o desejo de reencontrar Machado de Assis, que ainda não reli na vida adulta.
Entre quem está começando a descobrir o mundo e quem já ensina alguém a atravessá-lo, o encontro me deixou com ainda mais vontade de ler. Tanto que, horas depois, eu estava deitada no sofá, Kindle nas mãos, luz rosa acesa e o vento frio da noite paulistana entrando pela janela.
A Roleta de Perguntas
Como a maioria era estreante, precisei quebrar o gelo natural de uma conversa entre agentes secretas que ainda não se conheciam. A solução foi a Roleta de Perguntas, inspirada em clássicos da TV brasileira e nas extensas reuniões corporativas.
E teve de tudo:
• Livro polêmico.
• Livro subestimado.
• E-book ou livro físico.
• Se a sua vida fosse um gênero literário.
A roleta gira, e a pergunta que cai sempre revela algo que talvez nem sabíamos que estava ali. Parece que falamos de livros, quando na verdade falamos de nós mesmas.
O Sonhador e a Frase que Não Se Cala
Com menos de nove minutos para o encerramento — horário que tento cumprir a todo custo — decidi sortear uma última pergunta, coletiva:
“Uma cena de livro que te marcou?”
Como toda reunião secreta exige confidencialidade, não posso revelar as respostas que ouvi. Posso apenas dizer que até mesmo quem afirmou não saber respondeu, ainda que sem perceber.
Eu escolhi uma leitura recente: Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski. Queria revisitar a literatura russa há tempos e ela me revisitou primeiro.
Nas noites claras de São Petersburgo, o protagonista se apresenta como o Sonhador. Um romântico que nunca amou ninguém, até encontrar uma estranha e confessar:
“[…] Eu não sei calar quando o coração fala dentro de mim.”
Lembro precisamente do momento em que li essa frase. Respirei fundo, reli, fechei o Kindle, o encostei no peito e fechei os olhos. Pensei: não acredito que me entendi em uma única frase escrita por um autor russo em 1848.
Já me apaixonei muitas vezes por lugares, personagens, clubes de futebol e obras de arte. Mas amar de verdade é raro. Talvez por isso eu tenha entendido tanto o Sonhador.
A coluna que você lê agora e o Clube que passou a existir após um único pensamento são frutos desse coração que não sabe se calar quando encontra algo que ama.
Quando a Conexão Vai Além da Imagem
Enquanto a casa clamava por limpeza e Aurora reivindicava atenção, me joguei no nosso espaço. Entre um comentário profundo e um “peraí”, entendi que a beleza do Clube não vem do cenário, mas do extraordinário coração ordinário que o sustenta.
O que poderia parecer rude ou misterioso — câmeras fechadas, rostos ocultos — se tornou seguro e confortável. Talvez a vida nunca tenha sido apenas sobre aparecer.

Print do segundo encontro do Clube do Livro com participantes de câmeras fechadas
Me conta: qual foi a última vez que você se conectou com alguém sem imagem, apenas pela voz?
P.S.: Certas identidades permanecem sob pacto, né Sukuna?
Um beijo e um queijo!
Vejo você semana que vem!

Agora toda Terça-feira às 08h08!








