(Não) Descanse em paz: cadáveres entram no mercado da beleza

Não “descanse em paz”: é o recado que o mercado da beleza nos Estados Unidos parece enviar aos cadáveres. Dizem que, depois da morte, vem o descanso, o silêncio, o fim. Mas, na guerra da beleza, vale tudo — até perturbar os mortos.

Em um tempo obcecado por juventude, performance e eficiência, nem a morte encerra o ciclo produtivo do corpo. Corpos sem vida passaram a ser reaproveitados como insumo de luxo para procedimentos estéticos minimamente invasivos e, assim, voltaram ao centro de um debate antigo, incômodo e cada vez mais atual: até onde vai a obsessão pela beleza em uma era que vive de se olhar na selfie?

Soa estranho (quase absurdo) imaginar que a alta sociedade do Upper East Side utilize gordura de cadáveres em consultórios de cirurgia plástica. Mais estranho ainda é saber que esses procedimentos dispensam anestesia geral, não exigem repouso prolongado e se encaixam perfeitamente na lógica do capitalismo moderno e sua produtividade extrema.

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Não é exagero nem delírio distópico: o médico Sachin Shridharani realizou um procedimento nos seios de uma paciente enquanto ela participava de uma conferência com um cliente. Afinal, é preciso encaixar a beleza, a saúde e o trabalho na mesma agenda.

Formado em Harvard, empresário e dono de um consultório luxuoso em Nova York, Shridharani é apenas o rosto mais visível de um fenômeno que mistura inovação, luxo e um desconforto moral difícil de ignorar. Por trás dessa cena está o alloClae, um preenchimento estético produzido a partir da gordura abdominal de doadores humanos falecidos, desenvolvido pela empresa Tiger Aesthetics. Vendido como avanço tecnológico, o produto promete exatamente aquilo que a elite corporativa mais deseja: resultados sutis, nenhum tempo de recuperação e zero interrupção da rotina.

Em termos simples, o alloClae reaproveita gordura de cadáveres, processada para ser aplicada em outros corpos como solução estética. O discurso é o da ciência, da segurança e da conveniência. O subtexto, porém, é outro: a ideia de que o corpo humano após a morte ainda pode (e deve) ser útil.

Não sejamos hipócritas: é fascinante pensar até onde a ciência e a medicina chegaram. Aproveitar algo de um corpo sem vida em benefício de um paciente vivíssimo é, no mínimo, instigante. Mas talvez seja justamente aí que mora o incômodo. Não se trata apenas de um novo procedimento, e sim de um sintoma de algo muito mais cruel.

Quando Beyoncé cantou que Pretty Hurts — a beleza machuca —, talvez tenha esquecido de nos avisar que ela também machuca no pós-morte. Aquilo que parecia ser o limite, a linha final, agora virou apenas um detalhe logístico. O corpo não descansa em paz; apenas assume um novo propósito.

As redes sociais escancararam um dos grandes conflitos do nosso tempo: a autoimagem. Em uma era em que queremos ser o mais harmonizados possível, há algo profundamente simbólico no fato de esse tipo de prática ganhar espaço justamente agora — quando o discurso deveria girar em torno de autoaceitação, amor-próprio e liberdade estética. A narrativa até mudou, mas a lógica segue intacta: melhorar, corrigir, otimizar.

“Evidenciamos o que temos de pior. A perfeição é a doença da nação”

Trecho da canção Pretty Hurts de Beyoncé.

Mas será que isso faz mal?

Durante a apuração, os discursos oficiais minimizam os riscos do procedimento. Ainda assim, especialistas alertam para a ausência de estudos de longo prazo e para possíveis impactos em exames como mamografias. Se é aprovado, atende aos critérios regulatórios mínimos — o que não encerra o debate. Talvez a pergunta nunca tenha sido se é permitido, mas se é aceitável.

As preocupações éticas vão além de riscos médicos ou leituras de exames. Em um mundo em que a doação de órgãos ainda é tema sensível, surgem questões menos mensuráveis, mas urgentes: houve consentimento real? Onde termina a doação e começa o mercado? O que acontece quando até a morte é incorporada à engrenagem do consumo? Não há indícios públicos de compensação financeira às famílias dos doadores — o que não elimina o desconforto.

No fim, talvez a questão não seja se o procedimento é seguro ou inovador. A pergunta que insiste em ficar é outra, mais amarga e bem menos tecnológica: que tipo de sociedade transforma cadáveres em matéria-prima?

#FrasePraPensar

“O mundo é grande o suficiente para atender às necessidades de todos, mas sempre pequeno demais para a ganância de alguns.”

Mahatma Gandhi

A vida pode não ser um morango. Mas, definitivamente, nem a morte tem sido. 🍓

Até semana que vem!


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