“Dinheiro não joga futebol, mas jogar futebol sem dinheiro é mais difícil.” Em 2019, isso realmente fazia sentido. Hoje, sinto pesar ao escrever que o dinheiro não só joga bola, como também escala, apita e escolhe quem fica de fora. E, como se não bastasse, temos a volta do velho truque do pão e circo (tema da Parte 1 da série).
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Há algum tempo, os cassinos online vêm dominando o mundo da propaganda. A discussão costuma parar nos influenciadores digitais, como se o problema terminasse ali. Mas raramente olhamos com a mesma atenção para um território ainda mais sensível: o futebol.
No Brasil, “apostar no seu time” não é nenhuma novidade. Desde 1892, práticas informais, como o jogo do bicho, já existiam. A presença das apostas não é mais periférica nem feita sob os panos. Por exemplo, em 1999, o então presidente do Vasco da Gama, Eurico Miranda, falou abertamente sobre apostar no jogo – até então não regulamentado – em uma entrevista à Rede Globo. Confira abaixo.
Eurico Miranda diz que não paga bicho contra time pequeno (Fluminense).
Dando um salto de quase 20 anos, o que era até então algo ilegal e com aura criminosa, presente apenas na vida de alguns, de repente passou a ser regulamentado, em 2018, com a entrada de algumas bets e das lotéricas da Caixa. Embora o jogo do bicho permaneça ilegal desde 1946, é difícil não associá-lo aos “tigrinhos” da vida.
O problema, inicialmente, parecia ser apenas o dos influenciadores irresponsáveis que divulgam casas de apostas online com vídeos manipulados, levando parte do público a enfrentar graves problemas na vida real como consequência das apostas. Mas em que momento esse problema chegou ao mundo do futebol?
Cassino Futebol Clube
Do story da tigrinha às camisas, aos campeonatos, às transmissões e aos discursos oficiais. Cassinos online aparecem constantemente como patrocinadores principais de times e competições.
A bola segue rolando, vemos as estatísticas da partida e, em seguida, somos soterrados por odds, promessas de ganho fácil e um mercado que lucra com a perda dos torcedores. No filme Onze Homens e um Segredo (2001), o personagem Danny Ocean (George Clooney) diz a seguinte frase:
“Porque a casa sempre ganha. Jogue por tempo suficiente, e a casa te pega.”
A frase é sobre cassinos, mas a lógica pode ser facilmente aplicada ao futebol. Porque aqui, quem perde ou ganha não importa; o que importa é o quanto a casa ganha. Entre polêmicas recentes, relembro o caso do jogador do Flamengo, Bruno Henrique, investigado por suposto envolvimento em manipulação de apostas, em que a acusação apontava que ele teria “combinado” de tomar um cartão amarelo com um parente. Apesar das provas apresentadas, o caso foi rapidamente esquecido pelo público, e o atleta não sofreu suspensão alguma.
É uma contradição e tanto acusar um jogador de manipular resultados enquanto o campeonato nacional é patrocinado por uma casa de apostas.
Isso só acontece no Brasil?
No site Investigate Europe, em 2025, foi publicada uma reportagem sobre como as apostas vêm se infiltrando no futebol europeu, com uma grande parcela dos clubes da elite firmando parcerias com empresas do setor.
Na Premier League, cerca de 60% dos clubes exibem marcas de bets ou cassinos como patrocinadores principais de camisa. Na Serie A (Itália), esse número sobe para 85%, como é o caso da Inter de Milão, patrocinada pela Betsson. A tendência se repete na Bundesliga (Alemanha), onde aproximadamente 78% dos clubes mantêm acordos do tipo, como o Borussia Dortmund com a Bwin.
Na Ligue 1, esse índice gira em torno de 72%, incluindo o Paris Saint-Germain com a Unibet. Já em LaLiga, a presença é múltipla e distribuída entre clubes como Atlético de Madrid e Sevilla.
Apesar das preocupações com o vício em apostas e dos esforços em favor da regulamentação, é possível concluir que, atualmente, clubes e organizações esportivas tornaram-se reféns do dinheiro.
Embora o fenômeno também ocorra na Europa, o cenário mais extremo é o do Campeonato Brasileiro da Série A. Dos 20 times da elite nacional, todos contam com patrocínio de empresas de apostas — assim como o próprio campeonato, que hoje se chama Brasileirão Betano.
Segundo o Globo Esporte, algumas empresas patrocinam mais de um clube. É o caso da Alfa (Grêmio e Internacional), da Betfair (Cruzeiro e Vasco), da Esportes da Sorte (Ceará e Corinthians) e da Superbet (Fluminense e São Paulo).
A título de exemplo, nos dois encontros entre Cruzeiro e Vasco, o time mineiro venceu em casa por 1 a 0, e o Vasco ganhou por 2 a 0 em São Januário. Em ambos os casos, a casa de apostas lucrou. E a pergunta que fica é: dá para confiar em um jogo em que o patrocinador ganha independentemente do desfecho?
“Apostas existem desde que o mundo é mundo”, alguns dizem. E, de fato, existem. Mas não na proporção de conteúdos relacionados que recebemos diariamente. Antes, era preciso se deslocar até algum local para fazer uma aposta; hoje, isso é feito em casa, em menos de um minuto.
O problema não é a aposta existir. É ela existir dentro do campo do futebol. Qual será o limite? Agora que donos bilionários de casas de apostas ao redor do mundo lucram com a paixão alheia sem nunca mostrar o rosto ou sequer dizer o nome.
Em algum momento, já paramos para pensar quem são, de fato, os donos das bets?
Até semana que vem!










